Sentado à mesa do restaurante do navio, lorde Montagu aguarda a chegada de Eleanor.Ela ainda está em sua cabine ajeitando os cabelos,finalizando a maquiagem ou trocando os sapatos que talvez tenha julgado insatisfatórios.Seguem para a Índia onde o lorde deverá assumir o comando de uma unidade militar britânica e ser responsável pela unidade motorizada.
Lorde Montagu não estranha a demora,tamborila na mesa,serve-se de mais um gole do copo de cristal,confere as horas em seu relógio de bolso.Antes que os ponteiros lhe comuniquem algo,um forte impacto lança tudo pelos ares,muitas pessoas perdem os sentidos,outras tantas gritam desesperadas e ninguém consegue coordenar os pensamentos
Era 30 de dezembro de 1915 e em menos de dez minutos o SS Persia desapareceu nas águas tensas do Mediterrâneo.Rompendo o tratado naval que afirmava que aos navios mercantes ou de passageiros deveria ser dada uma chance,um aviso para o desembarque antes do ataque,o submarino alemão U-38 lançou um torpedo implacável e centenas de vidas se perderam.
O Pérsia e Eleanor jamais chegariam à Índia.Sucumbiram juntamente com parte do séquito do marajá de Kapurthala e jazem no leito frio e escuro do mar entre rubis, safiras e esmeraldas.
O silêncio certa vez sugerido por uma pose de Eleanor ao ser modelo para o famoso escultor Charles Sykes tornou-se definitivo.Silêncio?
Durante as trinta e seis horas em que esperou ser resgatado, John Walter flutuava entre os destroços do navio e de sua vida.Os pensamentos seguiam feito ondas tumultuadas, escapavam entre os minutos, entre as horas que o relógio de bolso não marcava mais.Aliás,cadê ele?Deixou de existir,seguiu seu destino de náufrago entre restos de lógica e destruição.Sucumbiu.Como quase sucumbiu o lorde.A água, o sol e o medo rondavam-no como o rondava o espírito da morte.E Eleanor?Sentia que esse capítulo de sua vida também naufragara.Sua face era a face do terror.

Nesse mesmo período,uma geração de milionários,industriais e nobres se rendia ao luxo e sofisticação dos automóveis Roll-Royce e John Walter nutria uma paixão desmedida por carros.Por este motivo tornara-se editor da revista inglesa The Car Illustrated e proprietário do famoso modelo Silver Ghost.Foi ele o primeiro a dirigir um automóvel nos jardins do House of Parliament e foi dele também a responsabilidade de apresentar ao rei Edward VII o mundo do automobilismo.
A atmosfera do luxo e da exclusividade era o ar que lorde Montagu respirava,desejou assim uma mascote para seu estimado automóvel,mas não era somente a excentricidade e a ostentação que o movia,era a paixão, era Eleanor.Seu círculo de amigos recheado de personalidades importantes contava com a presença do famoso escultor Charles Sykes e foi a ele que o lorde solicitou a criação.

A estatueta em bronze era soberana ao adornar o capô do carro pessoal de lorde Montagu e apenas um grupo restrito compreendia o significado daquela imagem, The Whisperer...
Se ele pudesse voar nas asas de sua musa com o vento varrendo-lhe a dor,enxugando-lhes as lágrimas...Quando lhe estendem a mão e o resgatam da água,ouve um idioma com o qual não tem afinidade.Tem o olhar assustado ,o corpo gélido e uma triste história cujo ponto final se inscreve no obituário publicado nos jornais londrinos...Eleanor Velasco Thornton.
Eleanor era amiga de Anita Delgado, "protagonista" do livro Paixão Ìndia que estou terminando de ler.Alguns dos fatos citados aparecem no diário pessoal de Anita e a história me encantou.Histórias de amor sempre me encantam. A estatueta criada por Sykes se transformou posteriormente na emblemática figura Spirit of Ecstasy,a dama inclinada com os braços para trás que recebe o vento de frente,símbolo da luxuosíssima Rolls-Royce
“A graceful little goddess, the Spirit of Ecstasy, who has selected road travel as her supreme delight and alighted on the prow of a Rolls-Royce motor car to revel in the freshness of the air and the musical sound of her fluttering draperies.” – Charles Sykes, 1911