domingo, 7 de novembro de 2010

Ser mulher dói,mas é doce

Esse título não é original,copiei do blog Mulher da revista Época.Achei tão lindo e apropriado que não pensei em nada capaz de ser mais expressivo.
Acabei de assistir CARAMELO, uma produção franco-libanesa,lançada no Festival de Cannes em 2007.Desatualizada eu? Talvez se meu propósito fosse produzir resenhas.
Atemporal parece-me mais justo, pois pretendo apenas partilhar um pouco das delicadezas que se vão trançando no meu traçado pessoal,na pauta do meu cotidiano, na partitura da minha trilha.
Tenho estado às voltas com a cabeça fervilhando de intenções nem sempre tão claras e imediatas, mas sei que isso é a semente de um desejo que me ronda há tempos e que me são impossíveis datar.Talvez estejam grudados em mim feito pólen que eu  nunca soube ler.
Minha avó contava tantas histórias de suas vivências, de sua infância e mocidade e as repetia tanto que sob o véu da ignorância, da minha própria incapacidade e imaturidade  as percebia desgastadas e sem valor.Se eu pudesse hoje fazer esse retorno,absorveria cada palavra até decorar cada linha de sua narração, seus gestos, a alternância de tom na voz carregada de emoção, de saudade.Lembro-me é claro de uns retalhos soltos e desconexos cheios de vazios que quando tento recobrir,a lógica levanta inúmeras dúvidas sobre a veracidade e a coerência de alguns fatos relatados e  meu patchwork clama por algo que o recomponha.
Minha avó foi uma mulher simples,nada muito diverso das personagens retratadas no filme que citei na abertura desse post.Sei que há tanto na trajetória de vida dessa mulher que nasceu em 1910 e que orgulhosamente dizia ter nascido junto com o Cortinthians ,que quase enlouqueço com a ânsia que me afoga em querer organizar o tanto que puder para construir uma narrativa.Eu quero mesmo é escrever um livro!Acho que sempre quis , mas a clareza sobre essa decisão chegou há pouco.
Minha mãe, infelizmente não pode me ajudar nessa tarefa,sua memória e suas dificuldades comunicativas não permitem mais.Recorri à irmã mais nova de minha mãe que acabou de completar 59 anos.Ela também uma personagem importante dessa história que quero contar.
No pouco tempo que tivemos juntas em nosso último encontro,os fatos recentes e nada fáceis  de sua vida predominaram em nossa conversa e isso teve seu caráter terapêutico.Foi bom ter estado ali naquele momento.Se estivéssemos no salão Si belle , cenário principal do filme CARAMELO, ajudaríamos a compor o quadro de personagens femininas,universais em seus problemas,seus medos e cumplicidade.Gente da classe média menos favorecida lá e aqui, acalentando sonhos.
Viúva,morando com uma filha e uma neta adolescente,ainda procurando entender a rebeldia da filha mais nova que acabou de sair de casa e se recompondo após o terrível desgaste de cuidar da sogra com câncer até os últimos instantes de vida.Sogra que a atormentou e jamais perdoou o filho por ter se casado.
Depois dessa visita, com um pacote de fotografias antigas nas mãos para digitalizar e a promessa de um reencontro breve,parti.Meu coração sentiu-se sacudido ao ver as três mulheres da casa lançadas ao seu próprio e incerto destino.Senti algo semelhante no final de CARAMELO,sem nenhum desejo de julgar as escolhas, os caminhos,as decisões de nenhuma mulher da minha família.Da família de ninguém,porque ser mulher tem muito dessa história tão dolorida como uma sessão de depilação e doce nessa solidariedade nessa amorosidade que as mulheres tão naturalmente cultuam.


2 comentários:

  1. Gabriela Petrocelli7 de novembro de 2010 23:16

    ler o que você escreve remete a uma atmosfera única que me encanta toda vez. adorei esse post.
    sinto sua falta..

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  2. Uau, Gabi!Humildemente agradeço a admiração.Se eu ainda conseguir encantar as pessoas de um jeito ou de outro,posso afirmar que minha vida faz sentido.
    Beijão e volte sempre.

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