sábado, 20 de novembro de 2010

O Minotauro (parte 1)

Eu não conheci o Minotauro através de livros,mas através da televisão, assistindo ao Sítio do Picapau Amarelo.
A obra de Monteiro Lobato ,que hoje está causando burburinho no cenário das tentativas do politicamente correto,chegou até mim por intermédio da telinha ainda em preto e branco.Era um mergulho de cabeça na fantasia do qual eu não abria mão.Voltava voando da escola e não falava com ninguém até que o episódio chegasse ao fim.
Eu morria de inveja de uma amiga de uma colega de escola.Ela se chamava Ariadne.E Ariadne era uma menina bonita de cabelos longos e cacheados, delicada e simpática.E Ariadne, a amada de Teseu, era também o nome da minha heroína favorita àquela altura.
O que Ariadne, Teseu e o Minotauro tem a ver um com o outro?Onde eu entro nessa história?

Na ilha de Creta, desenvolveu-se uma fantástica civilização chamada minoica em virtude do título dado ao rei de Creta, Minos, e quer dizer faraó.Apesar de terem sido feitas maravilhosas descobertas arqueológicas dessa civilização,sabe-se pouco sobre ela, pois sua escrita nunca foi decifrada(exceto pela chamada quarta escrita).Sabe-se que a civilização minoica , juntamente com a egípcia são a base da cultura helênica.

Faço uma sugestão de leitura para quem aprecia mitologia grega:












Minos

As cores estavam em tudo,cores vivas que destacavam a maestria das pinturas que forravam as paredes.O rei Minos apreciava passar pelos corredores para descobrir um novo detalhe que lhe havia passado imperceptível na ronda anterior.Falava consigo mesmo e deslizava os dedos suavemente nas bordas das cores , nos contornos e sentia-se satisfeito com a precisão do artista e a energia que emanava do cenário.
Ao caminhar pela ala leste de seu monumental palácio,Minos detinha-se sempre com mais cuidado diante da imagem das toureiras saltando sobre o touro sagrado.Respirou profundamente e refletiu sobre como desejava que as pessoas compreendessem a necessidade de vencer os instintos.Superar o touro não é apenas um desafio pessoal dos próprios limites físicos.
Reparou na fluidez dos movimentos femininos e na destacada oposição de massa corpórea entre o touro e as mulheres e ficou satisfeito por Cnossos abrigar em suas paredes  arte e sabedoria.Orgulhava-se de seu palácio sem muralhas o que significa que seu governo era o de uma sociedade que dependia de sua capacidade diplomática e não muralhas e força.
Em todo o palácio havia sinais da importância do touro sagrado para ele e seu povo.Eram chifres de ouro em todo o palácio para que a lição não fosse esquecida.
Ainda no período da manhã,inspirado por essa aura contemplativa,passou pelo afresco onde damas de azul revelavam a leveza e a liberdade feminina que ele tanto valorizava.Todos os dias fazia questão de acordar a consciência para a importância de vencer a brutalidade, de evoluir.
 e depois de longos minutos , seguiu para o templo de Posseidon, o  deus dos mares tão cultuado na ilha.
Enquanto fazia uma oferenda, foi surpreendido pelo próprio deus.
_ Oh, Meu senhor! Que honra encontrá-lo aqui.Vim para agradecer mais uma vez pela proteção que o senhor dos mares tem concedido ao meu reinado.
_ Sim.Minos, vocês está realmente disposto a provar sua devoção?
_Claro!Farei um sacrifício com o que houver de melhor para agradecer a glória que atingiu o meu império, senhor! Falava isso sem erguer os olhos.
_ Venha comigo.
Antes que inspirasse o ar mais uma vez para respirar, Minos estava na praia com o Posseidon a seu lado.Ainda atordoado com a experiência e com a luz intensa do sol,viu sair da espuma da arrebentação um touro branco magnífico como nunca nenhum mortal tinha visto ainda.
Sentiu uma forte pressão no peito causada pela angústia do que deduziu no mesmo instante.Ele teria que sacrificar aquele animal espetacular.Olhou ao redor como se pudesse ainda argumentar, mas o deus o levou de volta com o animal para diante do templo onde permitiu  que o rei o visse.
A beleza do animal era absolutamente extraordinária e todos os que o viam enchiam-se de deslumbramento.
_Pasifae, minha amada esposa,não é possível que Posseidon sinta-se satisfeito com o sacrifício de um ser tão majestoso.
_Já imaginou as toureiras saltando sobre ele?Não seria de encher os olhos e o coração?Completou a rainha.
Minos que tinha o senso de preservar tudo o que era belo,achando mesmo que seria uma violência sacrificar o animal,achou que Poseidon não se importaria e sacrificou o mais belo touro de seu rebanho em vez do touro branco.
Contudo, o rei não levou em conta o fato de que os deuses vêem o que os homens são incapazes de ver.E. embora o sacrifício apresentado tenha sido grandioso para os padrões humanos, Minos não cumpriu a promessa que fez a Posseidon e essa atitude custaria um preço muito alto.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Bernardo

A fase Belo Horizonte inscreveu em minha natureza sociável , mas quase sempre restrita,um capítulo indelével.Como tradução de marcas tão profundas de amizade ou melhor, de tão profundas amizades, não encontro a palavra exata e cá estou eu deslizando para dentro de um clichê.
Acho que em vez de ressaltar as qualidades dessa forma tão especial de amor que chamam por aí de amizade(Eu prefiro chamar de amor mesmo),prefiro contar algumas histórias que testemunharam o engendrar desse sentimento.

O primeiro

Aula de uma disciplina do ciclo básico na UFMG,muitas vozes, um sotaque marcante que àquela altura me incomodava muito e me fazia sentir muito mais saudade de casa.Minhas tentativas de aproximação não haviam sido tão bem sucedidas eu pensava:"Por que diabos eu tinha de estar ali?"
Havia deixado para trás companhias adoráveis, inteligentes e bem-humoradas e agora , além de ter de reconstruir meu espaço e meu círculo de amizades , tinha de fazê-lo em meio a uma porção de jovens com senso de competição acirrado.Estava cercada de pessoas que haviam acabado de ingressar na universidade e eram provenientes de cursos variados para cumprir o obrigatório ciclo básico : engenharia, filosofia, direito, letras, matemática...Eu que ali chegara através de transferência, precisava cumprir esse créditos e fui incluída nessa turma.
Havia gente de todos os tipos,mas em geral era um pessoal muito bonito,mais bonito ainda era um tal Bernardo que fazia o curso de direito e que certo dia se aproximou de mim perguntando se eu era de São Paulo.Confirmei e ele abriu um sorriso cheio de dentes alvos e simpatia singular."Adoro São Paulo!Adoro o povo de lá ! É uma gente tão pra frente,de mentalidade aberta." Por um instante,incomodada com aqueles dias de sentir-me como uma estranha no ninho, quase pensei que ele estava sendo irônico.Mas, não! Ele continuava ali com aquele sorrisão pregado na cara à espera de um acolhimento.Ri e antes que fizesse qualquer comentário completou :" Ah!Diferente do povo de Belo Horizonte que é tão provinciano."
Essa aproximação começou a desmanchar a nuvem negra que pesava sobre mim e com o passar dos dias, aquela presença foi me levando a outras.Bernardo era um rapaz muito inteligente.Eu sempre me impressionava com suas intervenções nas aulas de economia.Ela sabia tanto sobre  neoliberalismo e  globalização.                                                
Uma de suas grandes paixões era a música clássica e ele foi me ensinando algumas coisas e sempre se emocionava profundamente ao ouvir obras-primas que estavam contidas em inúmeros cds organizados alfabeticamente em uma imensa gaveta que ficava em seu quarto.Morava em um apartamento no bairro Santo Antônio,uma das ruas mais íngremes que eu conhecia naquela cidade.
Esse mineirinho de Curvelo colecionava histórias muito interessantes de família  e de amigos.Vivia sob a asa protetora de uma mãe que ainda lhe comprava roupas e ficou mais próximo de mim ,após um certo desapontamento amoroso. Ele confiava a mim seus segredos e eu confiava-lhe uma espécie de devoção.A partir do semestre seguinte nunca mais seríamos colegas de classe.Ele foi para a faculdade de direito e eu fiquei ali mesmo no campus para cursar as matérias que me faltavam para obter minha graduação em letras.
Mesmo assim, ele frequentava minha casa e era amigo da minha família.Socorria-me quando eu precisava.Chegou a passar de madrugada no hospital em que Mariana ficara internada por conta de uma apendicite.Eu ajudava-o a renovar o guarda-roupas, ouvia suas tristezas a qualquer hora e o acompanhava a alguns concertos musicais.
A partir do segundo semestre , conheci outras pessoas que vieram a se tornar fundamentais na minha vida e a elas apresentei meu amigo Bernardo,meu irmão Bernardo.Esses encontros deram início a uma grande mudança de paradigmas na vida desse moço e nossos laços se estreitaram para além da presença física.
Inesquecível foi o dia em que ele me chamou para assistirmos à ópera Carmen no Palácio das Artes.
libreto da ópera (1999)
A essa altura ele era meu grande incentivador no Flamenco e sabia o quanto eu gostava também da obra de Bizet.Assim que começou o intervalo ele me disse que queria me dar uma coisa e me entregou seu convite de formatura.Fiquei muito feliz e o abracei, parabenizando-o pela conquista e demonstrando meu orgulho por ele.
Pediu-me para folhear o convite.Folheei meio agitada ainda devido ao impacto da ópera.Ele insistiu , respirei e cheguei ainda displicente aos agradecimentos:

Ao ver meu nome ali,senti algo semelhante ao que devem sentir as personagens de filmes americanos quando o amado se ajoelha,lhes oferece uma caixinha e lhes propõe casamento.Exageros à parte, o fato é que eu não esperava tal demonstração de afeto.Eu sempre estive tão mais acostumada a oferecer do que a receber,a demonstrar do que assistir a alguma demonstração que isso me possibilita compreender o fato de tamanha comoção.
Na vida todas as pessoas precisariam experimentar esse tipo de afeto pelo menos uma vez.Escapar das redundâncias superficiais das relações, do desgaste da convivência e fazer emergir serenas pérolas.Ninguém deve se negar esse direito e ninguém deve esconder do outro a força e a intensidade dessas conexões afetivas.
Na rocha árdua das montanhas de Minas colhi alguns corações.Quentes, borbulhantes, perplexos,inseguros,intensos,imensos,inquietos, vorazes,felizes ou quase.Todos corações vibrantes e aprendizes nessa jornada que se chama vida.O coração de Bernardo também.






terça-feira, 16 de novembro de 2010

Jeanne Hébuterne e Modigliani

Na postagem anterior falei de maneira muito subjetiva sobre Modigliani e sua Jeanne.Na verdade  falei sobre mim e não sobre eles.Não entendo de arte o suficiente para tecer comentários sobre a obra de Modi e também não desejo escrever aqui o que eu tiver lido em outro lugar para contar para vocês.
Ao vasculhar minhas próprias impressões as divido com os leitores desse blog e para mim basta.
Para quem não conhece a biografia de Modigliani e Jeanne, adianto que a tragédia de que tanto falei, foi uma tragédia mesmo.O artista tinha sérios problemas com drogas e com álcool e esse consumo desmedido agravava seu histórico de saúde : tinha tuberculose.

Em 1917 ele que era judeu conheceu Jeanne de família católica tradicional e 14 anos mais nova.Viveram uma relação amorosa um tanto tumultuada.Devido às péssimas condições de vida, passaram por muitas privações..


Segundo  Edward Lucie-Smith, "Lives of the Great 20th-Century Artists", Amedeo fora acometido por uma terrível dor nos rins que o levou para a cama, dias depois o vizinho do andar debaixo, o também pintor Ortiz de Zarate foi vê-lo e Modi reclama de uma dor de cabeça insuportável.Sobre a cama havia muitas garrafas de bebida vazias e uma lata de sardinha cujo óleo escorria para a colcha.Um médico foi chamado , mas infelizmente anuncio não haver esperanças para o pintor.Em 1920 com 36 anos,a saúde Modi chegava a um estado lastimável e em 24 de janeiro acabou falecendo devido a meningite tuberculosa.

Os pais de Jeanne a levaram para casa deles.Ela estava grávida de 9 meses do segundo filho do casal.No dia seguinte à morte de Modi, em total desespero Jeanne se atirou do 5º andar.Ela e o bebê que carregava morreram.

E nos nossos dias , podemos ler notícias como essa publicada no Estadão em 3 de novembro:


Uma pintura de Amedeo Modigliani foi leiloada em Nova York por US$ 68,9 milhões, um recorde entre as obras do artista italiano. O preço de A Bela Romana havia sido estimado em US$ 40 milhões pela casa Sotheby's.
AP
AP
'A Bela Romana' é parte de uma série de nus


O quadro, parte de uma série de nus produzidos por volta de 1917, foi arrematado por um comprador anônimo.O recorde anterior para uma obra de Modigliani era de US$ 43,1 milhões para uma escultura (vendida em junho passado) e de US$ 31,3 milhões para um quadro (2004).Modigliani, que viveu entre 1884 e 1920, originalmente concentrou seu trabalho em esculturas, mas mudou para pintura, em parte, por problemas de saúde. 

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Modigliani

          Sabe aquela sensação de estar impregnado de algo?
     Você tem um sonho e ao acordar, as impressões vividas durante o sono grudam em sua pele,em sua consciência e alteram seu humor ao ponto de fazê-lo duvidar se está realmente acordado.
       Passa o dia inteiro assim , na iminência de que o sentido de completude e realização nessa vida ocorra a qualquer momento.A realidade agarra suas pernas e o impede de se afogar de vez e aos poucos a sensação que o impregnou vai se diluindo e passa.Até o próximo capítulo.
          O mesmo acontece às vezes quando ao ouvir uma música,ao ver uma foto ou ao assistir a um filme seus ossos se abalam.
            A primeira vez que assisti a Modigliani, paixão pela vida fiquei assim por um tempo, como se pudesse corrigir as falhas históricas que não tornaram possíveis a plenitude de um amor.Claro que o filme, mesmo não sendo exemplo de excelência cinematográfica,com toda sua linguagem me abraçou fortemente.Até mesmo o fato de ser Andy Garcia a representar o apaixonado Amedeo Modigliani pode ter me induzido a essa aura.
     O fato é que a genialidade do artista e a tragicidade de sua vida e relacionamento com Jeanne são mesmo tocantes.

     Quando fui ao Masp pela última vez(e já faz até um tempinho),fiquei silenciosamente tocada diante das telas de Modi ali expostas.Senti-me transpassada pelas pinceladas a óleo e viajei no tempo tentando me aproximar da pessoa retratada e do próprio artista.
         Enxerguei e senti por intermédio dos contornos e cores de Modi,a infinitude de nossa finitude.Percebi o calor e o frio de uma Paris borbulhante com seus champagnes e vinhos célebres.Captei a atmosfera inebriante de pincéis, tintas e poetas registrando o mundo.
      O teto foi me achatando de tal modo que eu cabia na tela.Toda aquela pressão sobre mim  e então os olhos, quase todos vazados me abriram espaço para a fuga...



Quer descobrir suas próprias impressões, assista ao filme.
Nesta postagem , fiz singelos versos para Jeanne

sábado, 13 de novembro de 2010

Escorpião


Parte 1

                                                                   

O medo é algo estranho mesmo.Mecanismo de defesa nos deixa alerta com relação a possíveis ameaças.Eu tenho medos,medinhos e medões.Muitos deles existem porque representaram ameaça para os outros. Certamente tenho medo de possibilidades que já representaram para alguém algum incômodo, alguma dor, alguma tristeza.
          Durante muitos anos nutri verdadeiro pavor de escorpiões, principalmente em virtude do que me chegava aos ouvidos. O senso comum é mestre em lançar um rol de histórias, algumas insólitas, em torno da ação desses artrópodes curiosos.
          Enquanto morei em São Paulo, jamais presenciei qualquer acidente com escorpiões. Nem com vizinhos, nem com parentes ou amigos da escola.Tudo o que eu sabia vinha dos livros, da imaginação fértil de uns contadores de casos, dos pesadelos vendidos pelos filmes.Bastava para alimentar o mito que tomava força na minha cabecinha assustada.
       Quando eu soube que havia aparecido mais de um desses seres num apartamento do prédio em que eu morava em Belo Horizonte o medo tomou proporções alarmantes. Dentro da casa das pessoas? Que horror! Um Tityus serrulatus! Jesus, Maria e José!!!!
          Fiquei em estado de alerta, coloquei tela no que foi possível, ralos especiais. Tive pavor de imaginar um daqueles pequenos monstros causando dor em mim, à minha filha ou ao meu marido.Já pensou se picasse meu menino pequeno que não sabia nem falar?
            Descobri que os escorpiões eram muito mais comuns do que eu julgava e apareciam nas casas das pessoas. Essa informação ficou ainda mais próxima de mim nos últimos anos.Na casa em que moro apareceram alguns desses bichinhos peçonhentos e eu voltei a ficar alerta, amedrontada.A possibilidade de manter algumas galinhas, predadores naturais dos escorpiões, não passou e nem passa por minha cabeça.Simplesmente não dá.
     Embora esse medo tenha sido tatuado na minha mente, algo muito curioso me ocorreu.Dentro de uma sala de aula em Tietê, enquanto eu escrevia no quadro e explicava para meus alunos sobre a ocupação do poema no espaço do papel , senti uma fisgada no dedinho do pé direito.Uma agulhada.Ergui o pé num ato reflexo e ao olhar para o chão um lépido  Tityus bahiensis foi procurar esconderijo debaixo do pé de um carteira de aluno.Eu me sentei e pedi para que um aluno avisasse na secretaria que eu havia sido ferroada por um escorpião e que viesse alguém à sala.O que se seguiu foi o que vocês já imaginam.Houve alvoroço, é claro, porém o mais interessante foi que eu me mantive calma segurando o pé e aguardando que alguém me levasse a um hospital.As pessoas em volta se agitaram tanto, alguns adultos beirando a histeria e eu ali, a medrosa, começando a sentir os efeitos do veneno.Muita dor local.E o escorpião, creio que  muito mais apavorado do que eu , acabou sendo morto.
            Obviamente fui socorrida e cercada de atenção.Continuo sentindo medo do bicho, mas a razão superou o pânico.Achei melhor que eu tivesse sido a vítima e não qualquer aluno.Melhor que não tivesse sido ninguém, mas foi um acidente e embora a experiência não tenha sido agradável, rendeu mais uma história.

Parte 2

De novo não!

         Depois do episódio em Tietê que rendeu até produção de reportagem em sala de aula(por esse ponto de vista foi ótimo o incidente!),passei a ficar mais arisca,mas aquele Medão atormentado por fantasias foi se transformando em mera cautela.Não é nada agradável encontrar seres dessa espécie dentro de casa e menos agradável ainda é a dor de um encontro desastrado.
        Há dois anos mudei para a casa imediatamente à direita daquela onde vivi por 8 anos e por aqui já apareceram alguns bem pequeninos.Por mais que se dê atenção aos cuidados com limpeza e eliminação de tralhas(missão árdua essa), eles são insistentes.E eu pergunto: Por que comigo??Ah! Tá bom! Por que não comigo?
     Hoje eu sentei-me aqui, exatamente onde estou em uma mesa próxima à porta de entrada.Senti o contato de algo leve no pé direito.Uma pena,um fiapo deslizando,pelos do meu gato?Não,as patinhas sutis de uma criaturinha com menos de 3 centímetros.Ao sentir a "coceirinha", ergui o pé e o pequeno escorpião escorregou e caiu no chão.Acho que levou um segundo para eu me dar conta de que se tratava de um escorpião.Minúsculo,mas potencialmente venenoso.Nem pensei, taquei-lhe uma chinelada e acabei com sua vidinha infame.Dá para acreditar?
Ainda estou aqui cheia de cisma,mas ainda não penso em galinhas.  

foto do cadáver

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Bailarina espanhola

Ta Tchica  Ta Tchica Ta Tchica pá pá

 Pá Ta Tchica pá  Ta Tchica pá Ta tchica pá

Tchica pápá pá  Tchica pápá pá

As madeiras do assoalho cantavam com a energia dos golpes secos.Algumas repetições em coro e então um par de pés anunciava uma nova sequência.Primeiro lentamente e bem marcada.Uma, duas, três vezes seguidas por vários outros pares de pés, acelerando de tal modo que os contornos do som de cada batida iam sumindo a tal ponto de se engolirem e criarem apenas música.
A coisa toda ocorria no andar de cima do sobrado em frente a praça.A algazarra das crianças que se esparramavam pela área de lazer e a fofoca das babás tornavam secundárias.
Surgiam notas de um piano clássico que despertava uma contagem firme na voz de mulher.Às vezes um curto silêncio irrompia, mas tão breve que parecia inexistir e a contava recomeçava,ora sobrepondo-se,ora sendo encoberta por outras vozes, outra contagem.De fora era curioso notar piano e guitarra flamenca serpenteando pelo bairro e invadindo a grama e as pedras da praça.As pessoas no seu ritmo , se ouviam não prestavam atenção.
O que de fato não podia compreender aquela mulher de cabelos escuros e cacheados é que todas as vezes em que passava por ali -talvez condicionara-se a escolher aquele horário - percebia as mãos suadas serem agarradas pelo ritmo, loucas de febre.Sentia a voz cigana beliscar-lhe o sangue como se fosse possível deixá-lo mais vermelho e mais denso.Flamejante sangue.
Em uma dessas vezes não pode mais resistir e procurou esconder esse incêndio na alma, embora não pudesse apagar as faíscas que saíam dos olhos, quando adentrou a recepção da escola de dança.Convidada a ver e não apenas a ver, mas a vivenciar o aquecimento da aula, enxergou a mágica e a quis para si.
Não pode dormir bem naquela noite, dada a euforia semelhante àquela que causavam os reencontros surpreendentes.
Teve que fazer uma sangria nas emoções.Lembrou-se de Rilke e localizou na estante um exemplar que comprar oito anos antes quando ainda morava em São Paulo.Leu:

BAILARINA ESPANHOLA

Como um palito de fósforo na mão,alvar
antes de ,aceso,estender suas línguas ardentes
para todos os lados - a dança circular
de junto do espectador começa a alargar
seus círculos,clara,célere e cálida sempre

E eis que de súbito se faz chama a dança inteira.

Com o olhar, a bailarina inflama a cabeleira
e,com arte ousada, de um só golpe distende o
seu vestido todo num rodopiar de incêndio
do qual, serpentes,em desnudez e susto vão
surgir os braços despertos, num bater de mãos.

Depois, como se fosse pouco, ela junta o fogo
e o atira,num gesto arrogo,
repentino,imperioso,e contempla,enlevada,
ele estorcer-se no chão sempre sem perder nada
da sua fúria,numa recusa de apagar-se.

Triunfante e segura,com um sorriso amável,
ela saúda então,ergue o rosto e sem disfarce
o esmaga com seus pezinhos implacáveis.

Quis ler Lorca também.A excitação cedeu ao cansaço da hora avançada e sonhou à moda de Saura.Ficou face a face com o garboso Antonio Gades e enfrentou o olhar implacável de Carmen,ouvindo a voz do seu fantástico professor de história do 2º ano como plano a narrar os episódios e feitos mouros na península ibérica.
Nunca mais acordou.


Esse post faz parte de uma das minhas espetaculares experiências em Belo Horizonte.Foi através da professora Cássia Rodriguez que travei contato com o Flamenco na Academia de Dança Meia-ponta.O impacto foi muito marcante , muito próximo do que descrevi no texto acima.Depois Cassia engravidou, partiu para novos projetos e acabei por descobrir que na Faculdade de Educação Física da UFMG, por meio dos cursos de extensão oferecidos,eu poderia voltar a praticar essa dança tão mágica para mim.Eu era estudante do curso de Letras da UFMG no período da manhã e assim que minhas aulas terminavam,eu corria para o ponto de ônibus e pegava o circular que me levava até o prédio da Educação Física que ficava na outra extremidade do campus.Conheci pessoas incríveis lá e desenvolvi um pouquinho mais meus conhecimentos sobre Flamenco.No entanto, não houve uma regularidade nesse processo.O curso sempre recebia muita gente nova .Grande parte ia desistindo ao longo do ano,mas no ano seguinte recomeçava tudo , pois este era o objetivo do CENEX(acho que era assim que se chamavam os cursos de extensão oferecidos pela universidade).
Cássia me indicou uma professora especializadíssima em uma escola de dança de um bairro nobre de BH,fui para lá.As aulas eram ministradas com um guitarrista.Coisa de primeira mesmo.A turma já estava avançada e senti certa dificuldade em me adaptar.Desanimei um pouco porque diferentemente das experiências anteriores eu não sentia o pulsar da energia que me atraíra para essa arte, embora as falas da professora fossem muito interessantes,ela falava sobre a energia da Terra nos puxando para baixo e nos orientava a mover da cintura para baixo com intensidade e força.Dizia que nossos braços,nossas mãos por outro lado deviam ser leves como se estivessem suspensos por fios invisíveis,dependentes da energia dos céus.Curioso é que não me lembro do nome dela.Era uma mulher que escapava do estereótipo da gitana.Tinha cabelos curtos permeados por reflexos loiros de salão de beleza.Havia acabado de retornar da Europa com a bagagem cheia do que havia de mais recente a respeito do baile flamenco.
Eu não me encaixei.Não fazia parte daquele grupo de moças e meu sangue parou de cantar.Descobri que estava grávida e acho que eu mesma acreditei que este motivo deveria me afastar dos tablados.Nunca mais dancei novamente.

domingo, 7 de novembro de 2010

Ser mulher dói,mas é doce

Esse título não é original,copiei do blog Mulher da revista Época.Achei tão lindo e apropriado que não pensei em nada capaz de ser mais expressivo.
Acabei de assistir CARAMELO, uma produção franco-libanesa,lançada no Festival de Cannes em 2007.Desatualizada eu? Talvez se meu propósito fosse produzir resenhas.
Atemporal parece-me mais justo, pois pretendo apenas partilhar um pouco das delicadezas que se vão trançando no meu traçado pessoal,na pauta do meu cotidiano, na partitura da minha trilha.
Tenho estado às voltas com a cabeça fervilhando de intenções nem sempre tão claras e imediatas, mas sei que isso é a semente de um desejo que me ronda há tempos e que me são impossíveis datar.Talvez estejam grudados em mim feito pólen que eu  nunca soube ler.
Minha avó contava tantas histórias de suas vivências, de sua infância e mocidade e as repetia tanto que sob o véu da ignorância, da minha própria incapacidade e imaturidade  as percebia desgastadas e sem valor.Se eu pudesse hoje fazer esse retorno,absorveria cada palavra até decorar cada linha de sua narração, seus gestos, a alternância de tom na voz carregada de emoção, de saudade.Lembro-me é claro de uns retalhos soltos e desconexos cheios de vazios que quando tento recobrir,a lógica levanta inúmeras dúvidas sobre a veracidade e a coerência de alguns fatos relatados e  meu patchwork clama por algo que o recomponha.
Minha avó foi uma mulher simples,nada muito diverso das personagens retratadas no filme que citei na abertura desse post.Sei que há tanto na trajetória de vida dessa mulher que nasceu em 1910 e que orgulhosamente dizia ter nascido junto com o Cortinthians ,que quase enlouqueço com a ânsia que me afoga em querer organizar o tanto que puder para construir uma narrativa.Eu quero mesmo é escrever um livro!Acho que sempre quis , mas a clareza sobre essa decisão chegou há pouco.
Minha mãe, infelizmente não pode me ajudar nessa tarefa,sua memória e suas dificuldades comunicativas não permitem mais.Recorri à irmã mais nova de minha mãe que acabou de completar 59 anos.Ela também uma personagem importante dessa história que quero contar.
No pouco tempo que tivemos juntas em nosso último encontro,os fatos recentes e nada fáceis  de sua vida predominaram em nossa conversa e isso teve seu caráter terapêutico.Foi bom ter estado ali naquele momento.Se estivéssemos no salão Si belle , cenário principal do filme CARAMELO, ajudaríamos a compor o quadro de personagens femininas,universais em seus problemas,seus medos e cumplicidade.Gente da classe média menos favorecida lá e aqui, acalentando sonhos.
Viúva,morando com uma filha e uma neta adolescente,ainda procurando entender a rebeldia da filha mais nova que acabou de sair de casa e se recompondo após o terrível desgaste de cuidar da sogra com câncer até os últimos instantes de vida.Sogra que a atormentou e jamais perdoou o filho por ter se casado.
Depois dessa visita, com um pacote de fotografias antigas nas mãos para digitalizar e a promessa de um reencontro breve,parti.Meu coração sentiu-se sacudido ao ver as três mulheres da casa lançadas ao seu próprio e incerto destino.Senti algo semelhante no final de CARAMELO,sem nenhum desejo de julgar as escolhas, os caminhos,as decisões de nenhuma mulher da minha família.Da família de ninguém,porque ser mulher tem muito dessa história tão dolorida como uma sessão de depilação e doce nessa solidariedade nessa amorosidade que as mulheres tão naturalmente cultuam.