quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Contos de amor

Eu gostaria de partilhar com vocês, leitores, os textos de alguns de meus alunos. Trata-se de uma dessas produções de texto corriqueiras que, na escola, se tornam material para treino da escrita e, muitas vezes, para avaliação. 
Sempre que vamos escrever, procuro, sobretudo, sensibilizá-los para trazer à tona "o reino das palavras" , onde, sob conselhos de Carlos Drummond de Andrade, devemos penetrar surdamente.
Alguns desses jovenzinhos de 13, 14 anos fazem isso com maestria, sem se perder no labirinto das regras , da coerência e da coesão. Divirtam-se, saboreiem como eu fiz.

Contos de amor, segundo proposta do livro Para Viver Juntos da SM edições.



Maia e Kishan, um amor proibido

Betina Armelin Dal Porto

    O jovem só sabia chorar, mas não era de se esperar algo diferente de um Intocável, vida mais sofrida que a deles não havia.
    Kishan teve de deixar a escola dos intocáveis aos onze anos para ajudar a pagar as despesas. Ele e o irmão gêmeo idêntico, Baldev, perderam o pai muito novos e como a situação monetária não ajudava, a contribuição deles era necessária.
    Com o tempo Baldev foi despertando interesse na fácil vida da casta dos Brâmanes e começou a levar seu irmão em todas as folgas para observá-los. Kishan sempre se focava em uma esbelta jovem pouco mais velha que ele.
    Certa vez, acabou chegando perto demais dela, a ponto da moça notar. Ela veio até ele e começaram a conversar e se interessaram muito um no outro. Assim, sempre que os irmãos visitavam os Brâmanes, Kishan corria ao encontro da jovem mais deslumbrante que conhecera. Antes que se dessem conta, os dois estavam apaixonados. Para ambos isso nunca havia acontecido, começaram a intuitivamente demonstrar uma determinada felicidade anormal.
    Um dia, Maia, a amada de Kishan, descobriu que ele era Intocável. Preocupou-se inicialmente, sempre ouviu falar deles como inferiores, mas acabou decidindo que seu amor por Kishan era maior que isso.
    Sabendo que quando os pais de Maia descobrissem seus encontros com Kishan proibiriam-nos de ficar juntos começaram a se ver escondidos.
   Os sentimentos da garota intensificaram ainda mais, cantarolava pela mansão e tornava-se cada dia mais alegre. Os pais, estranhando, começaram a prestar atenção no dia-a-dia de Maia.
    Quando Kishan e Baldev chegaram no casarão, os pais da menina flagraram o amor proibido dos jovens e prenderam Maia em um porão dizendo que encontrariam alguém para ela e no dia do casamento ela descobriria quem seria e sairia do porão.
   Sabendo que, como de costume, no dia seguinte, antes do almoço seu amado viria, começou a escrever uma carta explicando o que acontecera. Mas como esta carta chegaria às mãos da jovem?
    Quando uma das trabalhadoras chegou ao porão com o café da manhã de Maia, após a refeição a garota colocou na bandeja a carta para Kishan e pediu que a empregada a entregasse ao belo rapaz moreno de olhos azuis que logo chegaria.
    No momento da folga de Baldev e Kishan, foram, os dois, ver os Brâmanes. Baldev recebeu a carta da trabalhadora, por engano, que era para Kishan. Logo leu-a, descobriu o amor secreto do seu irmão e sentiu inveja de Kishan, porque este conquistou uma moça de tamanha beleza. Contudo, vendo tamanho problema que o casal enfrentava, resolveu não se meter e entregar a carta ao irmão. Kishan contou sobre seu amor para Baldev e perguntou se o ajudaria a cavar um túnel do jardim até uma janela do porão, segundo as informações de Maia na carta. Baldev concordou em ajudar, porém disse que considerava melhor realizar este feito durante a madrugada, visto que todos estariam dormindo e seria difícil alguém os flagrar.
    Por volta de meia-noite, os gêmeos seguiram em direção aos imensos casarões dos Brâmanes, chegaram à moradia de Maia e começaram a cavar o buraco que levaria à janela do porão. O amor de Kishan por ela era enorme, de tal forma que cavava intensamente para poder vê-la logo, por isso, a passagem ficou pronta em um tempo inesperadamente curto.
    Kishan acordou Maia e os dois lascaram um beijo intenso e genuíno além de prometerem nunca deixarem um ao outro. Kishan voltou a ver Maia em todos os momentos possíveis e o amor deles aparentava mais forte do que nunca. A única coisa que os preocupava era que alguém os flagrasse novamente.


   Certa noite, quando Kishan adormeceu Baldev vestiu as roupas do irmão gêmeo e foi até a residência de Maia, e fingindo ser Kishan sugeriu que fugissem da Índia antes que fossem flagrados e separados novamente. A jovem concordou, logo o traidor, Baldev, fugiu com o amor de seu irmão e nunca mais obtiveram alguma notícia dele ou de Maia.




Miguel e Raphaela
 Giovana Banov
   

   Raphaela completou 17 anos, mas não era simplesmente uma adolescente de 17 anos comum, Raphaela era uma princesa, que se preparava para assumir o trono, pois seu pai, rei Baldoc, adoeceu.
   Faltavam onze dias para a coroação da jovem. Para ela, ser rainha não significava nada, então, o rei decretou que sua filha só subiria ao trono ao lado de um marido.
   A ordem do pai a magoou profundamente. Raphaela não era como as outras meninas, ela não queria um noivo escolhido pelo pai por ser rico. Queria se apaixonar.
   Todas as tardes a menina saía escondida para ir à feira, onde passava a maior parte do dia. Mas naquela tarde, como estava confusa e indecisa, Raphaela foi ao bosque passear.         Após horas andando, a moça se sentou ao pé de uma macieira e com o tempo a bela adormeceu.
    Acordou de repente com uma maçã batendo em sua cabeça. Porém, não caiu naturalmente, foi jogada.
   Raphaela olhou para cima, e no topo da árvore havia um garoto que gritou para ela que já era tarde. Na hora encheu-se de raiva, mas após encará-lo por alguns instantes, se acalmou, sentiu algo diferente em seu coração.
   Após olhar seus olhos, o rapaz, Miguel também parou. Nunca viu uma moça tão bonita em toda sua vida. Os dois se desculparam e a partir dali, puseram-se a conversar sobre tudo.
   Como Raphaela, Miguel apareceu no lugar por acaso.  A menina, por mais que soubesse que ele era um estranho e plebeu, contou que era a princesa, já que de alguma forma, confiava nele.
   Quando voltaram para casa, Raphaela ao castelo e Miguel ao seu chalé, começaram a se sentir estranhos, como se algo faltasse, e só pensavam um no outro.
   Passaram-se várias semanas e descobriram que o nome daquilo era amor. Se encontravam todos os dias, e Raphaela, enquanto estava com ele se sentia a pessoa mais feliz do mundo. Porém ao voltar para casa, só sabia chorar para o pai que queria se casar com Miguel.
   O rei não poderia arcar com a responsabilidade, porém aceitou, com a condição de que Miguel teria de competir e ganhar dos outros pretendentes. Assim, Raphaela contou a notícia ao amado, que se pôs a trinar frequentemente.
   Passaram-se dois meses e chegou o dia da luta. Miguel não imaginou que fosse tão difícil: os cinco oponentes iriam que competir entre si com flechas para atravessar o campo, e pegar a caixa de ouro. Quem pegasse a caixinha primeiro, ganharia a mão da princesa e a posse do reino.
   A luta iniciou. Miguel ficou parado, não sabia usar o arco. Viu os príncipes em sua frente serem atingidos e pôs-se a correr. Conseguiu ultrapassar três, porém ao empatar com o quarto, já na metade do campo, Miguel foi atingido.

Mozani







                       A ventania começou depois das nove da noite.Rodopiou, tagarelou, fez sua arruaça.  Som de portas batendo e trovões. Trombetas e tubas. Acho mesmo é que estão avisando que deixou essa terra magra um amigo. Estão avisando que Mozani, o gato querido da família Leite, pede passagem. Lá vai ele, Lá vai ele...

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Minha mãe


                                                               
Minha mãe

     Cada um de nós tem sua própria narrativa em andamento.Não é possível reeditar o texto, como fazemos no word e apagar aquele trecho no qual faltou coerência ou no qual se permitiu escapar a coesão. Não tem jeito! No entanto, na progressão das linhas, vamos rearranjando as ideias, os sentimentos , criando novos discursos, ora diretos ora indiretos , mas quase sempre recheando as passagens com discursos indiretos livres. E pensamos... Como pensamos e repensamos e esquecemos e voltamos a repetir e reescrever sobre linhas já borradas.
    O tempo pretérito, implacável e perfeito não volta. Faz-se água. Faz-se rio tal qual afirmou Heráclito e nele não podemos mais pousar os pés, porque já não é mais o mesmo.
    Minha mãe é assim. Uma narrativa de enredo ambíguo, com duas histórias distintas e um protagonista que se confunde consigo próprio, porque a fuga de sua memória fez dela outra pessoa.Minha mãe é o colo-rio de Heráclito. Não poderei pousar minha cabeça cansada com o peso das frustrações naturais da existência no mesmo rio, porque embora seja o mesmo rio, suas águas de sabedoria escorreram para um não sei-onde. 
    Recolho suas mãos brancas e fragilizadas pelo tempo - e quantas histórias há naquelas mãos que se ergueram para o bem e para o mal - beijo-lhe as faces já murchas e os cabelos desbotados. Reconheço seu odor num mágico primitivismo, mas sua voz firme e imperativa, severa e ameaçadora só existe dentro da minha própria cabeça. Seus olhos outrora intensos e luzidios se espalham em mil olhares e não distingo o que perseguem. Vez por outra sorriem, vez por outra me encontram para tão breve perder-se no papel em branco.
     Minha mãe está e não está ali.Sua não-presença castiga mais que a velha cinta de couro sobre a pele. São inúmeras as vezes em que sinto a punição de não ser ouvida, de não ser mais a caçulinha protegida. Pura contradição. Aquela mulher de presença de aço com suas opiniões enrijecidas e inflexíveis verdades sabia abrir-se em ternuras e mimos. Enchia a casa de aromas e arrumações, mimava-me em seu colo e convidava-me a sentir-me amada quando ninguém mais no mundo poderia fazê-lo. Eu a temia e a amava com toda a força que a contradição pode assombrar.
     A história da dona Marlene, carinhosamente chamada de Nina, não pode ser reescrita, não lhe sobraram sonhos a cumprir, porque se existem estão em algum lugar inatingível. Não podemos ouvi-los... Restam linhas e páginas adiante apenas para alguns garranchos de vida. Ela não pode redigir sua própria narrativa, mas nós, seus filhos, netos e parentes próximos, lhe seguraremos as mãos como se faz com as pequenas crianças que aprendem os primeiros rabiscos.

Olga Martins
Os animais apareciam em ordem alfabética e não pareciam fazer o menor sentido.A primeira palavra era albatroz. Que diabos de bicho era aquele com esse nome pretensioso para quem estava começando a aprender a ler ? Havia também serelepe. Serelepe era do que minha mãe me chamava, de modo que esse bicho era ainda mais esquisito porque ele era eu!
Assim, as primeiras letras vieram já com uma complexidade simbólica muito inquietante e  se inscreveram no meu recém-criado mundo de palavras tomando posse de um espaço jamais substituído. Lembro-me de ambos e do traçado colorido das letras em fichas caprichosas, mas os vulgares elefantes, leões e gatos sumiram da minha memória.
Sabe a história da areia que vira pérola? Assim mesmo, causando incômodo , inquietação tornaram-se preciosas marcas no meu vocabulário, espécie de cartão de visitas de uma lista enorme que foi crescendo sem timidez.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Eu sou minha

Agora, nesse momento eu sou só minha e pertenço somente aos voos todos que a asa de uma joaninha resolver desenhar.Não será o tempo dos fusos-horários nem das máquinas de ponto, tampouco da escala de trens do metrô de São Paulo.Nesse momento em que sou toda minha e de mais ninguém, não arrasto pensamentos, apenas ensaio uma taça de um dramático vinho argentino, escuto Strokes e deixo as palavras brincarem de serem o que quiserem. E você aí que me lê, seja todo seu também nesses minutos perdidos. Não pense, flua sorrateiramente no tremor do lábio que aspira e sorva a soma das palavras que se entrecruzam por aqui.Esteja aqui , em Nova Iorque , na vila Carioca e, Itaquera, sob o sol de Cancún , nas areias do Cairo e em todos os lugares. E o caminho continua com seus fardos absurdos por simplesmente estar vivo.Dissolva-se e torne a ser, mas não sofra com o impacto , que este é inevitável. Viver dói.

domingo, 27 de outubro de 2013

Coisas que não se explicam

Quando já caminhamos um bom trecho do caminho, aquelas certezas vazias de substância começam a desmoronas bem diante de nós e o melhor de tudo é percebermos que elas não nos fazem mais falta.
Contudo, as certezas recheadas de certezas que se consolidam, vibram intensamente e a substância da felicidade se espalha por tudo.
Algumas dessas belas coisas da vida, com suas coincidências - vorazes coincidências que não são coincidências, mas que insistimos em chamá-las assim -  não se explicam. Não deveríamos perder nosso tempo tentando encontrar respostas para perguntas que nem foram feitas. Deixem estar. Essas mesmas coisas que nos tomam de assalto por suas surpresas, por suas delicadezas e incompreensíveis resoluções é que vindo de onde vêm, explicam muito dos sentidos perdidos Elas não devem ser o alvo de nossas indagações, mas são elas que agem, que atuam e que nos permitem compreender aquela porção de sentimentos que brotam e nos enchem de esplendor. E basta! O importante é reconhecermos a magia quando ela nos enreda...

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Ao dormir

Eu vi as asas de Hipnos baixarem sobre suas pálpebras lentas
enovelados, seus membros tornaram-se lassos e brandos contornos.
No farfalhar das asas o deus verteu o sono líquido,
Fundindo silêncio e sono.

Do lado de cá da grande cordilheira , tudo vi.
E ouvi desprender-se do cansaço seu corpo .
Sua respiração aprofundou-se em grutas
e ressonou serena , sem esforço sem drama.

Movia-se suave o desenho de seu flanco ,
quase montanha que aguarda o nascer do sol...
Do lado de lá, de mãos estendidas Morfeu  tomou -o num abraço
e em sua boca destilou gotas de sonho
- Até daqui a pouco!