quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Fernandinha no dentista




Fernandinha carregava o típico sotaque português quando adentrou o consultório do dentista. Sentia-se apreensiva porque não lhe agradava a anestesia. Seria necessária?
-Bom dia!
-Bom dia, doutore!
Viu o doutor abrir e fechar gavetinhas, via-o lavar as mãos, colocar novas luvas. Olhou à volta e conferiu o espaço.
A cadeira começou a se inclinar e as mãos da Fernandinha suavam. Quis entabular conversa para estimular a simpatia do dentista:
- Vai ter pica hoje?
- Como ?
Numa fração de segundo o dentista percebeu a situação:
- Diz-se assim em Portugal?
- Sim!
- Pois então não diga!
Só depois, conversando com as amigas do escritório, Fernandinha descobriu o que tinha proposto ao médico. 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Dias e pessoas ensolaradas

Dias e pessoas ensolaradas

        Quando a praia era uma excitação inacessível, íamos ao Estoril, ali no Riacho Grande. Não precisávamos de muito, exceto de uma oferta generosa de sol. Podia ser sábado, mas domingo também estava bem.
      A Variant azul era abastecida e dá-lhe dona Nina na banguela,Via Anchieta abaixo. Algumas sacolas com trocas de roupa, toalhas e uns pacotes de bolacha - porque paulista fala bolacha e não biscoito. Havia garrafa térmica com café? Talvez. Alguma torta? Um bolo?
          Muitas vezes algum tio ou tia; ou ainda os dois ao mesmo tempo, vó inclusive. Bom mesmo era quando o tio Moacir ia junto. Não é engraçado quando seu tio se parece com uma criança feliz? 
         Em tempos quando cinto de segurança era adereço ignorado,o marido da minha tia ia na frente, quebra-vento aberto e bração para fora com panca de playboy. Em meia hora chegávamos àquele mundão de água e era difícil conter a animação.Eu já estava com o maiô por baixo do vestidinho fácil de tirar.Não era complicado achar uma vaga para estacionar e o sol era feliz , nada furioso como hoje.
        Eu gostava mesmo era do Estoril que tinha uma estrutura melhor.Tinha até um parquinho para a gente brincar, mas acho que quando a grana estava muito curta, ficávamos ali, à direita, do outro lado da rodovia porque não se pagava para entrar.
           Que divertido! Meu Deus! Era muito divertido correr e pular naquela prainha da represa.Claro que ir para o Gonzaga ou para São Vicente era muito melhor, porque aí ,sim, era mar de verdade, com ondas e sal, mas estar ali entre aguapés e aquela beirinha lamacenta já era especial.
            E tinha o tio Moacir que nunca deixava nada tedioso. Eu não entendia como a tia Fátima brigava tanto com ele. E nem podia. Inocência de criança faz questão de ver o lado iluminado dos seres, nunca as sombras.Sombra é mesmo coisa de adulto, de responsabilidade. Ele se divertia me vendo sambar,gostava das minhas espertezas de menina, era meu companheiro nas mariscadas que minha mãe fazia ou nas paneladas de siri trazidos na fieira e que tinham o melhor sabor do mundo. Não me lembro de mais ninguém se divertindo tanto comigo diante de um bom prato. É! Tio Moacir era um enorme dia ensolarado. 

quarta-feira, 13 de maio de 2015




(Re)conhecer



    Hoje cedo, alguns alunos me perguntaram se no meu blog havia dicas de leitura. Eu lhes expliquei que a finalidade desse blog não era pedagógica, mas pessoal. Mas, cá entre nós, falar das coisas que li e gostei,ou das que acho bom poder compartilhar com meus alunos-amigos, não é pessoal?
   Estive pensando que poderia começar pelo começo : atirei-me com gosto no universo da leitura quando há muitos e muitos anos, li em um volume mal conservado da  Enciclopédia Trópico de uma amiga de adolescência sobre o pomo da discórdia. Pronto! Se eu já me sentia atraída pelos livros, caí de vez no vórtex.
  Desse modo, meus queridos companheiros de viagem, vou apontar algumas leituras dentre as muitas possíveis. Alguns desses exemplares não são meus, mas do meu filho que adotou a mesma paixão pela Mitologia.
    E digo mais : quando há um bom tempo atrás fui fazer um curso de atualização em civilizações clássica na própria Grécia com algumas das maiores autoridades no assunto, o professor Jacyntho Lins Brandão nos disse , de maneira sábia, que ali iríamos reconhecer a Grécia, porque ,de alguma forma já a conhecíamos, portanto, espero que , se desejarem, também a conheçam e encontrem grandes momentos de prazer com a leitura.





segunda-feira, 6 de abril de 2015

O cisne branco

Sentados à mesa próxima da porta de saída - ou entrada dependendo da perspectiva -, mastigávamos quase mecanicamente, quase insipidamente ainda que a comida estivesse muito boa. Era só o que fazíamos, saciávamos a fome do estômago, mas eu tinha uma fome ainda maior que a africana. Eu sentia fome de gente, de histórias,de luzes e sombras que toda fotografia permite retratar.
Mastigávamos e com o canto do olho vi a bengala se ajeitar e apoiar as pernas frágeis dos cabelos brancos ali ao lado. Levantou-se e cruzou dois metros até alcançar o caixa livre. Deteve-se interrogando alguém, um garoto com fones de ouvido.
- Você gosta de música?
- Como ?
- Conhece a canção:Qual cisne branco em noite de lua...? - cantarolou com a voz gasta pelas décadas.
A resposta negativa não surpreendeu o senhor. O pai do garoto se aproximou, repousou os braços sobre os ombros do menino e respeitosamente ouviu a mesma pergunta:
- Ele não conhece. E você? Qual cisne branco em noite de lua...
Não fiquei olhando para não ser invasiva e comentei em voz baixinha acessando meu companheiro ao lado , alheio a tudo.
- Hã?
- Eu conheço o Cisne Branco. Expliquei-lhe o contexto.
-Ah!
Aquela fome que não tinha sido saciada, se intensificou e, como quem cruza os dedos e torce para ser notada, pensei firme, pensei forte.Eu quero conversar com o senhor.Eu quero saber quem é e por que insiste em indagar sobre a música. Eu queria conversa com o avô que a vida me negara.Eu queria sugar da seiva da velhice sábia e paciente para a qual quase nunca temos paciência.
A senhora dele também se pusera em pé e seguira para mesinha de café atrás de um chazinho digestivo.Cruzou com pessoas conhecidas, trocaram cumprimentos e gentilezas e novamente sobreveio a pergunta sob a aba da boina.
- Você conhece...? - cantarolou novamente , mas as vozes se sobrepuseram nas intermináveis misturas de nomes de amigos e parentes a quem se emitem cumprimentos e lembranças remotas. Cessou-se a tagarelice.
Talvez de tanto desejar com o coração límpido, o senhor parou a meu lado, num gesto de despedida, findo o almoço dominical.
Antes que descesse o degrau e se atirasse vida afora, mais uma vez ateve-se à pergunta:
-Você conhece...-acompanhei os versos - Qual cisne branco em noite de lua, vai deslizando num lago azul...
- Sim , é o hino da marinha!
O rosto do avozinho se iluminou e ali, naquele encontro fortuito, entabulamos uma breve conversa. Era impecável a linguagem. Seu Cláudio, 86 anos e dona Helga. Juntos caminhamos nas ruas mortas do domingo até onde nossos carros estavam estacionados. Era uma solidão tão grande, mas nenhum traço de infeliz destino. Simples aquisição de tempo. Simples prosseguir de história. Se há mágoas,perversas decisões,tristeza e abandono, não vi. Ouvi histórias, ouvi traços de uma história. Apertei as mãos envelhecidas. O sorriso gentil que me foi lançado ao final das contas foi terno,manso, suave, como s quem já percorreu um longo caminho, sabe soprar para quem vem chegando. Entraram no carro e saíram deslizando num lago sereno de horas azuis...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Os filhos do Cigano




    Acabei de receber um telefonema de São Paulo.Era meu irmão, um dos gêmeos, a quem chamo e sempre chamei carinhosamente de Boro - não me perguntem o significado disso - Boro de Borino. O outro gêmeo , para criarmos uma distinção, era o Boro de Borão. Acho que foi o Vandir mesmo quem criou esses epítetos. Coisa de menino cheio de invenções para com a irmã mais nova, dez anos mais nova.
    Faz dias que a televisão vem apresentando um comercial da Natura sobre uma garotinha que indaga sobre haver meia-irmã, meio primo, meia-tia e conclui que é irmã e pronto! 
Eu nunca me senti metade de nada e meus irmãos nunca usaram o termo meia-irmã, aliás, não me lembro de ter ouvido ninguém na família nos rotular assim, O fato é que crescemos e seguimos rumos distintos , e quando falo em rumos, falo de distância física mesmo. Acentuada , obviamente, pelos rumos de nossas escolhas, nossas novas famílias.
    Eu dizia que meu Boro de Borino me ligou.A voz um tanto embargada já me adiantando que não me trazia notícias ruins, mas algo surpreendente. 
  Para se compreender tal surpresa, preciso falar sobre algumas pontas soltas na história de nossas vidas, no caso, na vida deles  - porque as pontas soltas na história da minha vida são outras.
   Meus três irmãos mais velhos são filhos do primeiro casamento da minha mãe. Hoje sei que não se tratava de um casamento no sentido exato da palavra. Descobrimos isso muito mais tarde, porque não era assunto de criança e, sobretudo, pesava moralmente. Enfim! Moça de 17 anos, voluntariosa e bonita , nossa mãe - até então, mãe deles - vivia com esse oficial da polícia rodoviária, um homem cujo apelido era Cigano. Pelo que conheço dos relatos de avó e tios, um homem de gênio impulsivo , mas belo.Minha avó repetia à exaustão a história do dia em que ele levou um coice de um cavalo no quartel e o matou com um soco na testa. - cavalos têm testa? O fato é que esse homem já possuía uma esposa, uma família com filhos. Deles nada soubemos nunca.
    Os meninos eram bem pequenos quando em perseguição a um bandido na Via Anchieta, já bem próximo à descida da Serra do Mar, Cigano sofreu um acidente.Conta-se que havia tambores com fogo para iluminar o local, o fusca em que se encontrava o oficial - seria mesmo um oficial ou me trai a memória? - bateu contra um desses tambores e o carro se incendiou. Com o corpo robusto, não conseguiu  passar pela janela da porta que estava emperrada e a tragédia foi inevitável.
    Foi sepultado com honras militares e se tornou um eterno herói na mente e no coração desses meninos.
No sepultamento , provavelmente , se comentou muito sobre a viúva que se vestiu de vermelho. Essa era a minha mãe, que chocava o povo da Vila Carioca.
   O telefonema? Ah, sim! Meu irmão quis compartilhar a amarração daquelas pontas de que já falei. Era para me dizer que esses irmãos , filhos da viúva oficial, passaram 50 anos procurando os irmãos e , apenas agora,  conseguiram entrar em contato com eles. A coisa toda foi agora há pouco, pouco antes de eu receber o telefonema. Fiquei feliz por eles, Fiquei mesmo! Senti a força do sangue do Cigano aproximando os filhos inocentes, Belo, belíssimo. Meio-irmãos?? Irmãos. Até eu que não tenho o sangue do Cigano fui incluída. Querem reunir os irmãos. Irmãos. Eu sinto que aquela lacuna imensa que povoou o imaginário dos meus boros começará a ser habitada por novas histórias, novas imagens velhas a que eles nunca tiveram acesso. Era apenas uma antiga e carcomida foto a referência paterna. Virão outras e os filhos do Cigano o trarão de volta à vida entre tantas recordações.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Contos de amor

Eu gostaria de partilhar com vocês, leitores, os textos de alguns de meus alunos. Trata-se de uma dessas produções de texto corriqueiras que, na escola, se tornam material para treino da escrita e, muitas vezes, para avaliação. 
Sempre que vamos escrever, procuro, sobretudo, sensibilizá-los para trazer à tona "o reino das palavras" , onde, sob conselhos de Carlos Drummond de Andrade, devemos penetrar surdamente.
Alguns desses jovenzinhos de 13, 14 anos fazem isso com maestria, sem se perder no labirinto das regras , da coerência e da coesão. Divirtam-se, saboreiem como eu fiz.

Contos de amor, segundo proposta do livro Para Viver Juntos da SM edições.



Maia e Kishan, um amor proibido

Betina Armelin Dal Porto

    O jovem só sabia chorar, mas não era de se esperar algo diferente de um Intocável, vida mais sofrida que a deles não havia.
    Kishan teve de deixar a escola dos intocáveis aos onze anos para ajudar a pagar as despesas. Ele e o irmão gêmeo idêntico, Baldev, perderam o pai muito novos e como a situação monetária não ajudava, a contribuição deles era necessária.
    Com o tempo Baldev foi despertando interesse na fácil vida da casta dos Brâmanes e começou a levar seu irmão em todas as folgas para observá-los. Kishan sempre se focava em uma esbelta jovem pouco mais velha que ele.
    Certa vez, acabou chegando perto demais dela, a ponto da moça notar. Ela veio até ele e começaram a conversar e se interessaram muito um no outro. Assim, sempre que os irmãos visitavam os Brâmanes, Kishan corria ao encontro da jovem mais deslumbrante que conhecera. Antes que se dessem conta, os dois estavam apaixonados. Para ambos isso nunca havia acontecido, começaram a intuitivamente demonstrar uma determinada felicidade anormal.
    Um dia, Maia, a amada de Kishan, descobriu que ele era Intocável. Preocupou-se inicialmente, sempre ouviu falar deles como inferiores, mas acabou decidindo que seu amor por Kishan era maior que isso.
    Sabendo que quando os pais de Maia descobrissem seus encontros com Kishan proibiriam-nos de ficar juntos começaram a se ver escondidos.
   Os sentimentos da garota intensificaram ainda mais, cantarolava pela mansão e tornava-se cada dia mais alegre. Os pais, estranhando, começaram a prestar atenção no dia-a-dia de Maia.
    Quando Kishan e Baldev chegaram no casarão, os pais da menina flagraram o amor proibido dos jovens e prenderam Maia em um porão dizendo que encontrariam alguém para ela e no dia do casamento ela descobriria quem seria e sairia do porão.
   Sabendo que, como de costume, no dia seguinte, antes do almoço seu amado viria, começou a escrever uma carta explicando o que acontecera. Mas como esta carta chegaria às mãos da jovem?
    Quando uma das trabalhadoras chegou ao porão com o café da manhã de Maia, após a refeição a garota colocou na bandeja a carta para Kishan e pediu que a empregada a entregasse ao belo rapaz moreno de olhos azuis que logo chegaria.
    No momento da folga de Baldev e Kishan, foram, os dois, ver os Brâmanes. Baldev recebeu a carta da trabalhadora, por engano, que era para Kishan. Logo leu-a, descobriu o amor secreto do seu irmão e sentiu inveja de Kishan, porque este conquistou uma moça de tamanha beleza. Contudo, vendo tamanho problema que o casal enfrentava, resolveu não se meter e entregar a carta ao irmão. Kishan contou sobre seu amor para Baldev e perguntou se o ajudaria a cavar um túnel do jardim até uma janela do porão, segundo as informações de Maia na carta. Baldev concordou em ajudar, porém disse que considerava melhor realizar este feito durante a madrugada, visto que todos estariam dormindo e seria difícil alguém os flagrar.
    Por volta de meia-noite, os gêmeos seguiram em direção aos imensos casarões dos Brâmanes, chegaram à moradia de Maia e começaram a cavar o buraco que levaria à janela do porão. O amor de Kishan por ela era enorme, de tal forma que cavava intensamente para poder vê-la logo, por isso, a passagem ficou pronta em um tempo inesperadamente curto.
    Kishan acordou Maia e os dois lascaram um beijo intenso e genuíno além de prometerem nunca deixarem um ao outro. Kishan voltou a ver Maia em todos os momentos possíveis e o amor deles aparentava mais forte do que nunca. A única coisa que os preocupava era que alguém os flagrasse novamente.


   Certa noite, quando Kishan adormeceu Baldev vestiu as roupas do irmão gêmeo e foi até a residência de Maia, e fingindo ser Kishan sugeriu que fugissem da Índia antes que fossem flagrados e separados novamente. A jovem concordou, logo o traidor, Baldev, fugiu com o amor de seu irmão e nunca mais obtiveram alguma notícia dele ou de Maia.




Miguel e Raphaela
 Giovana Banov
   

   Raphaela completou 17 anos, mas não era simplesmente uma adolescente de 17 anos comum, Raphaela era uma princesa, que se preparava para assumir o trono, pois seu pai, rei Baldoc, adoeceu.
   Faltavam onze dias para a coroação da jovem. Para ela, ser rainha não significava nada, então, o rei decretou que sua filha só subiria ao trono ao lado de um marido.
   A ordem do pai a magoou profundamente. Raphaela não era como as outras meninas, ela não queria um noivo escolhido pelo pai por ser rico. Queria se apaixonar.
   Todas as tardes a menina saía escondida para ir à feira, onde passava a maior parte do dia. Mas naquela tarde, como estava confusa e indecisa, Raphaela foi ao bosque passear.         Após horas andando, a moça se sentou ao pé de uma macieira e com o tempo a bela adormeceu.
    Acordou de repente com uma maçã batendo em sua cabeça. Porém, não caiu naturalmente, foi jogada.
   Raphaela olhou para cima, e no topo da árvore havia um garoto que gritou para ela que já era tarde. Na hora encheu-se de raiva, mas após encará-lo por alguns instantes, se acalmou, sentiu algo diferente em seu coração.
   Após olhar seus olhos, o rapaz, Miguel também parou. Nunca viu uma moça tão bonita em toda sua vida. Os dois se desculparam e a partir dali, puseram-se a conversar sobre tudo.
   Como Raphaela, Miguel apareceu no lugar por acaso.  A menina, por mais que soubesse que ele era um estranho e plebeu, contou que era a princesa, já que de alguma forma, confiava nele.
   Quando voltaram para casa, Raphaela ao castelo e Miguel ao seu chalé, começaram a se sentir estranhos, como se algo faltasse, e só pensavam um no outro.
   Passaram-se várias semanas e descobriram que o nome daquilo era amor. Se encontravam todos os dias, e Raphaela, enquanto estava com ele se sentia a pessoa mais feliz do mundo. Porém ao voltar para casa, só sabia chorar para o pai que queria se casar com Miguel.
   O rei não poderia arcar com a responsabilidade, porém aceitou, com a condição de que Miguel teria de competir e ganhar dos outros pretendentes. Assim, Raphaela contou a notícia ao amado, que se pôs a trinar frequentemente.
   Passaram-se dois meses e chegou o dia da luta. Miguel não imaginou que fosse tão difícil: os cinco oponentes iriam que competir entre si com flechas para atravessar o campo, e pegar a caixa de ouro. Quem pegasse a caixinha primeiro, ganharia a mão da princesa e a posse do reino.
   A luta iniciou. Miguel ficou parado, não sabia usar o arco. Viu os príncipes em sua frente serem atingidos e pôs-se a correr. Conseguiu ultrapassar três, porém ao empatar com o quarto, já na metade do campo, Miguel foi atingido.

Mozani







                       A ventania começou depois das nove da noite.Rodopiou, tagarelou, fez sua arruaça.  Som de portas batendo e trovões. Trombetas e tubas. Acho mesmo é que estão avisando que deixou essa terra magra um amigo. Estão avisando que Mozani, o gato querido da família Leite, pede passagem. Lá vai ele, Lá vai ele...

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Minha mãe


                                                               
Minha mãe

     Cada um de nós tem sua própria narrativa em andamento.Não é possível reeditar o texto, como fazemos no word e apagar aquele trecho no qual faltou coerência ou no qual se permitiu escapar a coesão. Não tem jeito! No entanto, na progressão das linhas, vamos rearranjando as ideias, os sentimentos , criando novos discursos, ora diretos ora indiretos , mas quase sempre recheando as passagens com discursos indiretos livres. E pensamos... Como pensamos e repensamos e esquecemos e voltamos a repetir e reescrever sobre linhas já borradas.
    O tempo pretérito, implacável e perfeito não volta. Faz-se água. Faz-se rio tal qual afirmou Heráclito e nele não podemos mais pousar os pés, porque já não é mais o mesmo.
    Minha mãe é assim. Uma narrativa de enredo ambíguo, com duas histórias distintas e um protagonista que se confunde consigo próprio, porque a fuga de sua memória fez dela outra pessoa.Minha mãe é o colo-rio de Heráclito. Não poderei pousar minha cabeça cansada com o peso das frustrações naturais da existência no mesmo rio, porque embora seja o mesmo rio, suas águas de sabedoria escorreram para um não sei-onde. 
    Recolho suas mãos brancas e fragilizadas pelo tempo - e quantas histórias há naquelas mãos que se ergueram para o bem e para o mal - beijo-lhe as faces já murchas e os cabelos desbotados. Reconheço seu odor num mágico primitivismo, mas sua voz firme e imperativa, severa e ameaçadora só existe dentro da minha própria cabeça. Seus olhos outrora intensos e luzidios se espalham em mil olhares e não distingo o que perseguem. Vez por outra sorriem, vez por outra me encontram para tão breve perder-se no papel em branco.
     Minha mãe está e não está ali.Sua não-presença castiga mais que a velha cinta de couro sobre a pele. São inúmeras as vezes em que sinto a punição de não ser ouvida, de não ser mais a caçulinha protegida. Pura contradição. Aquela mulher de presença de aço com suas opiniões enrijecidas e inflexíveis verdades sabia abrir-se em ternuras e mimos. Enchia a casa de aromas e arrumações, mimava-me em seu colo e convidava-me a sentir-me amada quando ninguém mais no mundo poderia fazê-lo. Eu a temia e a amava com toda a força que a contradição pode assombrar.
     A história da dona Marlene, carinhosamente chamada de Nina, não pode ser reescrita, não lhe sobraram sonhos a cumprir, porque se existem estão em algum lugar inatingível. Não podemos ouvi-los... Restam linhas e páginas adiante apenas para alguns garranchos de vida. Ela não pode redigir sua própria narrativa, mas nós, seus filhos, netos e parentes próximos, lhe seguraremos as mãos como se faz com as pequenas crianças que aprendem os primeiros rabiscos.

Olga Martins
Os animais apareciam em ordem alfabética e não pareciam fazer o menor sentido.A primeira palavra era albatroz. Que diabos de bicho era aquele com esse nome pretensioso para quem estava começando a aprender a ler ? Havia também serelepe. Serelepe era do que minha mãe me chamava, de modo que esse bicho era ainda mais esquisito porque ele era eu!
Assim, as primeiras letras vieram já com uma complexidade simbólica muito inquietante e  se inscreveram no meu recém-criado mundo de palavras tomando posse de um espaço jamais substituído. Lembro-me de ambos e do traçado colorido das letras em fichas caprichosas, mas os vulgares elefantes, leões e gatos sumiram da minha memória.
Sabe a história da areia que vira pérola? Assim mesmo, causando incômodo , inquietação tornaram-se preciosas marcas no meu vocabulário, espécie de cartão de visitas de uma lista enorme que foi crescendo sem timidez.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Eu sou minha

Agora, nesse momento eu sou só minha e pertenço somente aos voos todos que a asa de uma joaninha resolver desenhar.Não será o tempo dos fusos-horários nem das máquinas de ponto, tampouco da escala de trens do metrô de São Paulo.Nesse momento em que sou toda minha e de mais ninguém, não arrasto pensamentos, apenas ensaio uma taça de um dramático vinho argentino, escuto Strokes e deixo as palavras brincarem de serem o que quiserem. E você aí que me lê, seja todo seu também nesses minutos perdidos. Não pense, flua sorrateiramente no tremor do lábio que aspira e sorva a soma das palavras que se entrecruzam por aqui.Esteja aqui , em Nova Iorque , na vila Carioca e, Itaquera, sob o sol de Cancún , nas areias do Cairo e em todos os lugares. E o caminho continua com seus fardos absurdos por simplesmente estar vivo.Dissolva-se e torne a ser, mas não sofra com o impacto , que este é inevitável. Viver dói.

domingo, 27 de outubro de 2013

Coisas que não se explicam

Quando já caminhamos um bom trecho do caminho, aquelas certezas vazias de substância começam a desmoronas bem diante de nós e o melhor de tudo é percebermos que elas não nos fazem mais falta.
Contudo, as certezas recheadas de certezas que se consolidam, vibram intensamente e a substância da felicidade se espalha por tudo.
Algumas dessas belas coisas da vida, com suas coincidências - vorazes coincidências que não são coincidências, mas que insistimos em chamá-las assim -  não se explicam. Não deveríamos perder nosso tempo tentando encontrar respostas para perguntas que nem foram feitas. Deixem estar. Essas mesmas coisas que nos tomam de assalto por suas surpresas, por suas delicadezas e incompreensíveis resoluções é que vindo de onde vêm, explicam muito dos sentidos perdidos Elas não devem ser o alvo de nossas indagações, mas são elas que agem, que atuam e que nos permitem compreender aquela porção de sentimentos que brotam e nos enchem de esplendor. E basta! O importante é reconhecermos a magia quando ela nos enreda...

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Ao dormir

Eu vi as asas de Hipnos baixarem sobre suas pálpebras lentas
enovelados, seus membros tornaram-se lassos e brandos contornos.
No farfalhar das asas o deus verteu o sono líquido,
Fundindo silêncio e sono.

Do lado de cá da grande cordilheira , tudo vi.
E ouvi desprender-se do cansaço seu corpo .
Sua respiração aprofundou-se em grutas
e ressonou serena , sem esforço sem drama.

Movia-se suave o desenho de seu flanco ,
quase montanha que aguarda o nascer do sol...
Do lado de lá, de mãos estendidas Morfeu  tomou -o num abraço
e em sua boca destilou gotas de sonho
- Até daqui a pouco!



Eternamente jovens

A brisa arrastou pra dentro de mim
Um gosto de tempo que foi
Sem nunca ter saído do lugar

Deslizando pela hora do dia
Provocou ondas de emoção atemporal
Refrescou o peito saudoso
Apenas levantando a fina camada
De anos que insistiram em criar distância
Ao longo das filhas do calendário

Que visão da existência essa
Redesenhando o carinho escondido
Numa gaveta empoeirada
Num cofre sem chave
Tanto muda
E muito muda
No entanto nada rouba
A vida do olhar
Carteira de identidade
Alheia aos homens que somos
Faíscam
Cintilam

Eternamente jovens 

domingo, 15 de setembro de 2013

Áquila


Olga Martins

Asas abertas e o vôo na amplidão
São lâminas as penas no ar
Espada de nobre guerreiro
Fio do destino a cortar
Flexível, fluido como água
Afiado metal

Tudo vêem os olhos agudos
Filtra luz a pupila ardente
Forja flecha de arqueiro
Certeira e incandescente
Íris de fogo
Não erra

Garras cravam sem hesitação
Pegada de aço implacável
Alcança o objetivo
Com firme determinação
Energia estável
Força da terra

Elementos em harmonia se tocam
Medita no mais alto monte
Segura, enraizada árvore,
Madeira ancestral
AQUILL contempla
O que está dentro de si,
Seu próprio

horizonte.

sábado, 7 de setembro de 2013

Dor de agora

Dor de agora
                                               Olga Martins

Ai , quem me dera o tempo todo branco
Arrastasse a franja do esquecimento
Feixe de estrias em ajuntamento
Varrendo toda a dor do esquerdo flanco

Fluxo de contínuo gotejamento
Areia  rubra de uma ampulheta
Minha polpa de amargo pensamento
Que na tortura torpe se deleita

Quem dera os líquidos globos secassem
Então sementes de aurora guardadas
Sem vento , sem medo, sem dó ficassem

Por frequentes ondas repetitivas
Pulsar do peito  por elas molhadas

De toda pena minha alma lavassem....