terça-feira, 5 de outubro de 2010

UM CERTO CAPITÃO RODRIGO

Toda gente tinha achado estranha a maneira como o Cap.Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé.Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde...


Se o povo de Santa Fé estranhou essa chegada, eu não posso dizer o mesmo e agradeço  o modo como ele chegou até mim.Era um homem sedutor e expressivo cheio de coragem e determinação que se foi apresentando em duzentas e tantas páginas.
Meus dedos não podiam adivinhar o título, enquanto se desvencilhava do papel de embrulho que o guardava.Sequer supunha que tipo de aventuras eu poderia vivenciar com a história criada por Érico Verissimo (Sim , senhoras e senhores que reconheceram o sobrenome.Trata-se do pai do reconhecido cronista).Eu já havia lido Clarissa (lançado em 1933)há um bom tempo e havia gostado bastante, certamente por ter encontrado semelhanças com o espírito da menina em transformação.
Um certo Capitão Rodrigo chegou e eu li.Um Certo Capitão Rodrigo chegou porque li muito bem um texto de um concurso de leitura oral criado pela escola naquele ano.Não me lembro de tal evento ter ocorrido qualquer outra vez, mas quando resolveram inventar, lá estávamos eu e mais uma porção de meninos e meninas.Fomos encaminhados para uma sala e lemos um texto que nos foi entregue na hora.Se havia categorias por idade,se ficávamos ouvindo os oponentes,que texto era esse e se teciam comentários sobre nós não sou capaz de dizer.
Eu e Odair líamos bem, com postura, voz firme,expressiva, alta e clara.Sabíamos tecer as linhas com nossas vozes marcantes e ritmadas.Acho que nós dois fomos vencedores.Ou eu fiquei em 1º e ele em 2º?Pouco importa!O capitão Rodrigo me acompanhou até minha casa e comigo está até hoje.






Anos depois, a Rede Globo criou uma minissérie baseada na obra completa de Érico, O TEMPO E O VENTO (1985) e na pele Tarcísio Meira,voltei a ver O Capitão Rodrigo.Nem bom, nem mau, apenas um certo capitão.

Veja o capitão chegando a Santa Fé.


Não resisti ... a música de abertura é de Tom Jobim...linda..linda...linda...Chama-se Passarim
Segue a abertura da minissérie

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Animais, companheiros de viagem

Já contei aqui no blog sobre o cabritinho Cravinho que entrou na minha vida e nunca mais deixou minha memória em uma experiência infantil muito positiva com relação aos animais.Eu tinha 5 anos.
Fiquei pensando sobre o que gostaria de postar sobre esses companheiros de viagem que enchem nossos dias,nossas vidas e que me permitisse não ser piegas,redundante como um cachorro correndo atrás do próprio rabo.
O problema é que as ideias , às vezes têm vida própria e brincam de esconde-esconde.Surgem radiantes para em seguida se esconderem tão bem que não me resta nada além da sua faceta momentânea sem profundidade,sem continuidade,sem corpo.E num raio de muitos minutos fico vasculhando sua sombra e só encontro o vazio.
Então, concluo que hoje não postarei nada de novo sobre o assunto, apenas colocarei um poema que fiz há alguns anos a pedido da Ivana (Centro literário,Grupo Oficina Literária,Sociedade protetora dos animais de Piracicaba).
Quando acompanhei alguns alunos em um acampamento, havia um jardim naquele lugar  uma estátua de São Francisco de Assis entre pedras de uma fonte.Era uma coisa linda de se ver e a atmosfera serrana trazia um burburinho de lá de dentro da alma.


domingo, 3 de outubro de 2010

Minha Olivetti Lettera 32

Eu tive uma Olivetti Lettera 32.Devia estar na 4ª série , quando meu pai trouxe esse presente.Não era um luxo?Sua resposta vai depender,obviamente da sua idade.Se você pertencer a minha geração ou se tiver vindo ao mundo um pouco antes(ou muito antes) saberá compreender o valor de um presente como esse.
Àquela altura da minha vida escolar os trabalhos que eram solicitados se resumiam a pesquisas que eram "resumidas",no meu caso, mal e porcamente de enciclopédias ou livros que as atendentes das bibliotecas que eu frequentava ofereciam.
Faço essa afirmação sem o menor pudor e com a cara mais lavada do mundo, porque hoje tenho segurança em afirmar que não basta alguém dizer :
_ Faça pão de aveia e traga para que eu dê uma nota para ele tal dia.
Tudo bem, você recebe a incumbência e não percebe exatamente porque o pão tem que ser de aveia,não faz ideia do tamanho do pão que valerá maior nota,não suspeita se ele deve vir embrulhado, frio, quente... e nem sempre ousa perguntar, porque já assistiu a algumas iniciativas que resultaram em frustração.Sabe aquela voz estridente e ameaçadora"Como assim não entendeu??"
A pista inicial leva a crer que é necessária uma receita, mas se surpreende ao perceber que há receitas diferentes.E agora?Se sua mãe, tia ou avó conhecem uma ,confia na experiência adquirida por alguma delas.Caso contrário , apenas se arrisca.
Com a receita nas mãos, elabora a lista de ingredientes e se dá conta  das dúvidas que surgem e  nem sempre são esclarecidas na prescrição do texto.Isso é, se resolve parar para pensar.Descobre que há texturas diferentes de aveia, seriam flocos?Farinha?Farelo?
Acabou o açúcar refinado,mas tem do outro.Como se chama mesmo?Vixi!Fermento em tablete tem o mesmo efeito daquele comprado em gramas na padaria...
Na hora do preparo segue a agonia.Se ficar descansando um pouco mais.Como é esse negócio de sovar?Socorro!
Se gritou por socorro é por que você certamente se colocou diante de situações que levaram ao processo de aprendizagem, é um felizardo.
Exageros à parte, os trabalhos que eram pedidos causavam uma agonia mais ou menos assim ao ponto de serem cumpridos mecanicamente depois de certo tempo pela falta de interesse que produziam.
Na biblioteca tínhamos que copiar dos livros o que julgávamos atender ao que havia sido solicitado.Era , na verdade, uma coleta de dados que seria mais ou menos organizada e passada a limpo em folhas de papel almaço.Foi nessa época que um belo calo de escrita começou a nascer ,para nunca mais me largar, no dedo médio da mão direita.Eu e meus amigos recorríamos à Biblioteca Zalina Rolim na Vila Mariana  e por vezes íamos até a Amadeu Amaral no Jardim da Saúde.Nem sempre, ou muito raramente era possível xerocar o material pesquisado.
Assim quando a Olivetti chegou,exultei com o alívio que me traria na hora de finalizar os trabalhos escolares.A verdade é que havia a necessidade de se saber datilografar para apresentar um trabalho limpo.Esqueça o visual limpo e bonito das impressoras atuais.
A energia empregada nas teclas,a qualidade da fita, a habilidade de escrever com o mínimo de erros ,tudo isso eram variáveis para o aspecto final do trabalho.Não havia backspace ...
Quanto a mim , era especialista em catamilhografar e ansiosa desde cedo,teclava errado, usava lápis borracha,radex .Eu não era definitivamente um modelo de aluna no que diz respeito à apresentação visual dos meus trabalhos.Ainda bem que isso também se aprende e quando houve alguém interessado em me  mostrar como, me descobri capaz.
Minha Olivetti,depois que descobri a poesia(veja o post http://blogolgamartins.blogspot.com/2010/07/nasce-uma-paixao.html) e meu irmão começou a trazer uns bloquinhos de papel que ele montava na gráfica em que trabalhava,passou a me ajudar a registrar meus pequenos poemas, versinhos incipientes, sem consistência alguma, mas cheios de alma.Depois eu organizava aqueles escritos em bloquinhos novamente e os transformava em meus livrinhos de poesia.Fazia capas,ilustrava e lia para os amigos e para os frequentadores do bar.
Falei em bar?Ah!Esse é assunto para outro post

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

IRONIA DO DESTINO

A história da lista de coisas detestáveis me fez lembrar de uma cena que presenciei quando ainda morava em Belo Horizonte.Encontrei nos meus guardados um pequena crônica sobre o assunto.




Algumas pessoas têm verdadeiro horror quando vêem  alguém colocando o dedo no nariz . – Que nojo ! – Visão nada agradável devo concordar , mas afinal o patrimônio em questão é uma propriedade privada e sua manipulação não depõe contra  o bem público . A poluição visual causada por tal gesto acaba se volatilizando na superfície da memória . Quem nunca precisou pelo menos uma única vez dar uma cutucadinha inocente e quase involuntária nas narinas?
Insuportável mesmo é a atitude infame de se atirar lixo pelas ruas .Aí sim o circo de horrores se torna imbatível em sua  grosseria , pois além de ser uma caso explícito de falta de educação constitui também uma grave falta no que diz respeito às   leis de convivência social e muitas vezes culmina em problemas ecológicos .
O pior disso tudo é que todos os dias os inocentes papéis de balas sobrevoam pela cidade como se fossem malabares acompanhados por latinhas equilibristas e jornais trapezistas , num picadeiro repleto de poeira cinza e múltiplos palhacinhos deformados feitos de detritos . Exagero ? Não , é um circo de horrores , muito longe de se parecer com aquilo a que se propõem os  artistas mambembes . Na verdade , achar que o lixinho largado é muito pequenino e inofensivo é o mesmo que contar uma piada , mas ninguém ri .
crédito da imagem : blog do Diário de Pernambuco

Certa vez , quando eu ainda morava em Belo Horizonte presenciei uma cena em que uma porquinha -  sem ofensa aos suínos e palmeirenses -  se transformou em piada . A moça era a passageira de um carro que trafegava adiante do meu . O trânsito estava um pouco lento devido ao horário e assim pude assistir a tudo sem perder nenhum detalhe . Primeiro a moça atirou pela janela do carro uma porção de folhas de jornal que se espalharam pela calçada . Muitas delas rolaram em direção à rua . Coisa feia ! Passados alguns quarteirões , o semáforo indicou vermelho e o veículo que transportava a despudorada encostou . A porta do passageiro se abriu e a moça ao descer atolou o pé na  ironia do destino disfarçada de fezes caninas .Não contive a gargalhada , o sinal abriu e eu ganhei o dia :
_ Que falta tá fazendo aquele jornal , hein ?
Do retrovisor eu podia ver a moça esbravejando e as folhas de jornal nem podiam se mais vistas .
Agora só falta o dono do cãozinho ( se é que o pobrezinho tem um ) aprender sua lição sem ter que topar  , ele mesmo ,  com sua própria ironia do destino .

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Consumo



Hoje lancei no twitter, com um certo ar de desabafo,a ideia de fazer uma lista de coisas detestáveis.Não disse irritante para não plagiar a Fernanda Young, embora a força vital da ideia seja a mesma.
Comecei falando do quanto me incomoda recolher DIARIAMENTE,panfletos e jornaizinhos com ofertas de supermercados espalhados pela garagem.Faça chuva ou faça sol lá estão eles enroscados no portão, grudados na água que escorreu da planta ou da minha cadelinha, no jardim, na calçada,invadindo a rua.
Depois, já no final da tarde, declarei minha insatisfação com o mercado "fashion" para pessoas que oferecem mais de si para serem amadas, ou que amam com abraços maiores e mais confortáveis, resumindo, gordinhas!
É bastante difícil encontrar peças que sejam confortáveis, adequadas, belas e tenham preço justo.De preferência uma peça com todos os requisitos.Ou tudo é muito caro ou falta bom senso em quem as produz.Posso ser eu mesma?Enfim , fui efetuar uma troca.Dessa ação sobrou-me um pequeno crédito que em face do que a loja dispunha me dava direito a um par de meias.Meia aqui, meia acolá, não tive muita escolha , porque a maior parte delas custavam mais de dez reais.(eita meia cara, não é?).Restou-me escolher entre 3 pares,dentre os quais um par de meias amarelas!!!AMARELAS quase  cor de gema de galinha caipira!
Dei uma gargalhada e me vi obrigada a comentar com a vendedora:
_Será que tem alguém que acorde com  uma súbita e irrefreável vontade e diga:"Ah! Preciso sair , porque tenho que comprar um par de meias amarelas!"
A vendedora me devolveu um sorriso amarelo, para meu alívio, menos amarelo que as meias.
_ Moça, com essa falta de opção me dê essa listradinha mesmo.


PS. Se vc acha que as meias amarelas podem compor o visual com muito charme,( e até acho que podem mesmo dependendo da situação), já adianto : aquelas que me foram oferecidas não poderiam, eram muito feias mesmo!




Encontrei essas dicas.Quem sabe interesse a alguém.


créditos : R7

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Skyline Pigeon

Por essas e outras é que a vida vai se tecendo...
Já contei que no Olavo Fontoura tive espaço para dar vazão à necessidade de expressão.Oras através do esporte, oras através da música, da encenação.(Nunca menosprezem o papel da escola na vida das pessoas!)
Era uma espiral de possibilidades com extensões e densidades diferentes , mas todas igualmente geradoras de chances...

Quando Cristian chegou ficamos felizes.O número de professoras era costumeiramente muito superior ao número de mestres do sexo masculino.
Ouvir explicações  através de uma voz menos aguda e conviver em sala com alguém não suscetível à TPM nos prometia um refresco.Sem perder o foco da matemática e sem deixar de nos conduzir pelos meandros dessa ciência exata, Cristian arejava nossos dias com seu bom humor e seu talento musical.
Naquela escola, em especial na minha turma,ele encontrou terreno fértil para disseminar entusiamo pela música e fazer brotar de alguns o que estava recôndito e de outros o que já aflorava.
Logo destacavam-se os meninos com suas vozes e violões e seus desejos de expressão.Queríamos cantar, dançar, representar,contar piadas, fazer paródias e até compor.

Durante os inúmeros momentos em que os reuníamos com Cristian, cantávamos pérolas do cancioneiro popular , coisas antigas e bem diferentes do que rolava pela rádio. Uirapuru, Casinha Branca, Serafim e seus filhos.Mas não era só, embarcávamos felizes em canções de Gilberto Gil e tivemos momentos apoteóticos com Lindo Balão Azul de Guilherme Arantes e Mais uma de amor (Geme,geme) da Blitz.Sem contar a bela Roda Viva,a emblemática Por que não dizer que não falei da flores (caminhando e cantando...lembra?),a tonitroante Viola enluarada e outras tantas.
Angélica era uma das meninas mais inteligentes da minha sala, estudávamos juntas desde a 2ª série e Cristian costumava chamá-la de "marquesa dos anjos", epíteto que eu achava divino (com perdão do trocadilho).Quanto ao meu nome, sentia um incômodo imenso.Não gostava do som,não gostava da falta de motivo para essa escolha que acabou sendo aleatória, mas que me livrou de nomes piores (desculpem-me as Otacílias e Ondinas e as demais ocorrências onomásticas femininas iniciadas com a letra O) que não seriam nomes, mas acidentes.
Achava meu nome rotundamente sonoro com um abrir de boca solar.
E todos insistiam em dizer : 
"Que nome forte, você tem! , Olga é um nome muito forte, muito bonito!" 
"Ah, tá!" 
Até ter condições de pesquisar sobre sua origem e ler a livro Olga de Fernando Morais e descobrir ginastas olímpicas russas campeãs...ah, tá!
Cristian, talvez por notar minha carência por um epíteto bacana,(ou talvez eu tenha pedido insistentemente ,o que não seria de surpreender) me batizou : Olga, a musa dos sonhos dourados!
Agora sim eu podia flutuar, musa dos sonhos dourados era ainda mais divinal que marquesa dos anjos, mesmo por que , meu epíteto fora inventado pelo professor Cristian, não era cópia de uma francesa de outros tempos.Angélica era provavelmente minha melhor amiga na escola e agora estávamos em pé de igualdade.Agora sim!
O núcleo do grupinho que orbitava em torno de Cristian , quase sem lhe dar espaço para respirar, se fechava com Luiz Rubens e Luís Américo.Eram meninos cheios de talento que tocavam violão com luxuosa felicidade e aproveitavam para exercitar e ampliar seu repertório com o mestre.
Ensaiamos certa vez , eu e Luiz Rubens, uma representação para Casinha Branca que nunca mais saiu de nossas mentes e corações.Cristian e Luís Américo desfilavam as notas que brot
avam delicadas dos violões, parte da turma entoava em coro as palavras que contavam uma pequena história que eu e Luiz tingíamos no palco com gestos e expressões cheias de emoção e intensidade, com figurino e adereços.
Com a chegada do final do ciclo do 1º grau (hoje se chama Fundamental),sabíamos que nosso rumos seriam diferentes,tínhamos escolhas diversas e íamos para escolas públicas distintas.Travamos um pacto , quem ficasse famoso ou se destacasse no cenário musical, chamaria os outros três para cantarmos "Skyline Pigeon".Nunca me esqueci dessa promessa.



Há dois anos, mais ou menos, por intermédio do Orkut,os meninos me localizaram.Luiz Rubens é empresário em São Paulo , continua apaixonado por Raul Seixas e lidera um moto clube chamado Itanguido´s e Luís Américo (Luís Viola) mora em Munique, na Alemanha onde propaga a cultura brasileira, através do samba.Ele também é compositor.http://www.myspace.com/luisdubem.
Infelizmente nunca mais soube nada a respeito da Marquesa dos Anjos, minha amiga Angélica...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

FOME E PALAVRAS


Fome e palavras
                                  

Eu me alimento de palavras que se alimentam de mim
Vez por outra sofro de uma verborragia incontrolável
E falo pelos cotovelos até ficar velha de tanto falar
Por vezes sofro de febres de silêncio
Quando as palavras passam fome
e desnutridas de mim
são ecos ocos.