quarta-feira, 13 de abril de 2011

Dia do beijo

Entre as inúmeras obrigações de trabalho que desgatam meus olhos,meu tempo(ah! tá! recebo por isso),minha voz - que quer e precisa falar sobre tantas outras coisas além das regras intermináveis-, meu sonho, minha piada,meu ânimo e tantas outras coisas,cavei uma brechinha (quase indevida porque os prazos correm,o tempo escorre e eu bem queria correr deles).
Era isso ou cavar mais um tantinho no desespero....
Pois é! 13 de abril é o dia do beijo(eu já comentei por aqui que não gosto muito dessa história de datas comemorativas),mas escorregando por entre as páginas da internet, caí em um blog que falava do dia do beijo no ano passado.Um blog muito interessante,aliás:
Em 14 de Agosto de 1945, a Segunda Guerra Mundial tinha terminado oficialmente e em Nova York, na Times Square, uma quantidade enorme de pessoas se reuniu para a celebração.De repente um lindo marinheiro, puxou uma enfermeira pelo braço e a beijou. A cena foi imortalizada pelas lentes do fotógrafo Alfred Eisenstaedt para a revista  Life e se tornou o símbolo da alegria e da vitória.
Eu apenas posso imaginar o tipo de emoção e alívio que aquelas pessoas vivenciaram, porque , de fato, nunca vivi os tais tempos de guerra.
Minha avó viveu esse período e me contou acerca das dificuldades para conseguir determinados gêneros, chegou a enfrentar filas imensas antes do amanhecer para conseguir carne, por exemplo.Falo de um tempo em que não havia Carrefour nem Extra ou Wal Mart.Falo de um tempo e de uma família humilde às vésperas de se mudar do Rio de Janeiro para São Paulo em busca de melhores oportunidades de trabalho.
Dá para imaginar que minha avó precisou portar um salvo-conduto?

Quando este documento foi emitido,Olinda tinha 33 anos e a guerra ainda não tinha chegado ao fim.Acredito que o rádio tenha sido sua mais significativa fonte de informação e não faço a menor ideia se ela pôde ou não ver a tal foto do beijo.
Pelo pouco que conheci de sua austeridade moralista,imagino que teria dito: "Que pouca vergonha!"
Pelo pouco que conheço da alma feminina,no seu íntimo deve ter sonhado...um salvo-conduto para o beijo, por favor!!

domingo, 3 de abril de 2011

Grilos

Faz mais de dez anos que escrevi esse conto.Ele ficou dormindo quietinho.Agora eu o resgatei e sei o que mudaria nele,mas não mudei nada.Esse fica como nasceu.Imperfeito como eu.

Naquela tarde o tempo escorreu facilmente entre os dedos.O homem molhou o jardim e depois alinhando os velhos chinelos religiosamente do lado direito da cama  , deixou a porta aberta : convite aos grilos ,que à vontade, acomodaram-se sobre o lençol .
Na manhã seguinte, por engano, entregaram um jornal na casa errada. Definitivamente iria aprender a ler.
Tendo no peito aquela sensação imprecisa, uma certa necessidade de buscar no dia qualquer calor vira a idade chegar cedo , cedo demais ; antes mesmo que tivesse tempo para pensar na época de recolher-se ao leito.
Tendo tempo de sobra , ficava desconcertado sem saber muito bem o que fazer com aquelas horas em demasia , alternava-as entre afazeres corriqueiros ; consertar uma torneira , arrancar tufos de mato do quintal , plantar alguma semente .
Confuso queria programar-se , organizar-se na suspeita tumultuada da urgência do tempo. Agora sim quem sabe poderia juntar as primeiras letras e ler...ler como tanta gente vivia fazendo. Não que ele não soubesse algumas palavras, sabia como ele mesmo dizia, divulgar placas , nomes , coisas que não vêm ao caso agora .Relevante é saber que  lhe parecia tão bonito ver as pessoas abrindo as páginas cinzentas dos periódicos ... parecia tão importante.  Ali sobre aquele universo diariamente renovado ver pessoas juntando letras , notícias e horas .
Havia dias  em que se animava realizando mil tarefas .Encadeadas , profícuas encobriam o tiquetaquear do relógio . Esquecia-se de comer.
Contudo alguns dias , e eram muitos , cansava-se só de saber que as horas rolariam grossas .Impacientando-se, começava e não dava cabo de nada. Pensava em fazer algo e acabava arranjando obstáculos . De repente ,  tudo parecia perfeitamente adiável . Então , nesses dias preguiçosos aquela saudade era o quarto, a sala e a cozinha . Sentava-se num velho banquinho que tinha feito há séculos .
Para quem o teria feito ? Não conseguia se lembrar , mas o banquinho permanecia resistente e alheio aos acontecimentos . Imóvel. O velho lhe confiava a tarefa de suportar o peso da memória além daquele corpo pouco confortável e quase irreconhecível que sentava mudo .
            Ali diante das roseiras da sua amada Júlia , ele  e o banquinho ainda podiam vê-la cuidando de cada detalhe daquele jardim,  vibrava ao vê-la removendo tiriricas , regando todas as plantas, podando , eliminando pragas e sobretudo cantarolando “As rosas não falam”. Sempre que Júlia terminava a canção comentava sozinha esfregando as mãos no avental : “Quem disse que não falam?” Soltava um riso frouxo e completava : “Falam e sobretudo escutam!”
            O olhos captavam a cena  naqueles tempos em que o viço dos primeiros anos de casados pulsava.  Divertiam-se .
As mãos costumavam interromper a concentração da esposa , arrancando uma flor qualquer e colocando-a nos cabelos mal presos . Rodopiavam como se valsassem . Com o tempo Júlia foi perdendo o encanto , ficando  , aos poucos ,  incomodada com a brincadeira do marido . Esbravejando , batia as mãos em seus ombros .Que se aquietasse ! Ele achava graça , sorria, beijava-lhe a testa   e a soltava  aos cuidados do dia . Nunca soube o quanto a amada   irritava-se .
            O zelo de Júlia pelo jardim jamais sofreu qualquer deslize , nem mesmo quando os filhos vieram . O marido achava excessivo aquele desvelo  , mas aceitava e guardava nos bolsos ( furados decerto ) , qualquer reprovação .
            Os filhos cresceram e um certo silêncio foi preenchendo a rotina . Júlia continuava a cultivar suas flores , a cantarolar , porém o marido cultivava preocupações e temores .  Passou a não notá-la ali entre tantas flores. Nem ela percebia-se , às vezes confundia-se com as rosas , suas cores e seu silêncio. Numa manhã orvalhada também desabrochou .
            Agora , sentado naquele banquinho tristonho num acender de luzes perdia aquela lembrança , rolava com as pontas dos dedos algumas pedrinhas e seguia a trilha das formigas por minutos intermináveis sob o sol quente , sem nunca saber em qual das rosas  sua amada voltaria a desabrochar. As cores causavam-lhe uma certa confusão nos olhos . Se pudesse ler um jornal  ,  não ficaria ali lendo e relendo o mesmo livro cheio de páginas perdidas .
            Fim de fevereiro e a promessa  cumprida de chuvas o aturdia . Tinha de ver o jardim através da janela . O vidro embaçado  , quase todas as tardes . O banquinho girava num vazio . Março terminando aos poucos , aos pouquinhos , também a chuva .
            Não recebia visitas , nem mesmo de parentes. O cachorro , amigo dos últimos anos já estava enterrado .
            Depois das chuvas o jardim perdeu-se no mato , porém os dias de desânimo eram cada vez mais freqüentes . Júlia , com certeza devia estar zangada ,
            O velho colocou novamente o banquinho diante das rosas . O chão úmido, deixava as formigas de fora do cenário . Por pouco tempo decerto . Roçou a pela branca de uma rosa e o calor intenso permitiu-lhe sentir os aromas da terra ascenderem no ar . A tristeza recendeu.
O jardim encheu-se de grilos  . Havia tantos ! Saltando de um lado para o outro criavam um mosaico estranho e movediço .
Levantando-se do pequeno banco , Antenor caminhou até o portão ,  triste figura . Olhou para a antiga rua pela qual passara inúmeras vezes , a velha rua que sempre lhe trouxera de volta para casa . Nenhuma criança , nenhum vizinho , nenhum grilo do lado de lá . Todos os portões fechados como se o destino tivesse encerrado tudo num único pensamento . Solitária , cada coisa estava em seu silêncio , exceto os grilos ...

quarta-feira, 30 de março de 2011

Rito de passagem

Vista do lado de fora ela era uma imagem de ficção científica. Aquela cadeira  muito mais do que um objeto de trabalho  era incrível arquitetura em minha imaginação. Ela podia girar , suspender e abaixar quem nela estivesse sentado e eu ficava imaginando que aventuras poderiam ser narradas por aqueles que a usavam. Desejei sentir o que sentiam.
Toda vez que eu tinha que passar em frente à barbearia  de seu Onofre , diminuía o passo como se pudesse vivenciar uma narrativa fantástica que coubesse inteirinha naquela fração de tempo  . Meus olhos captavam apenas a cadeira, tudo o mais era subtraído da cena naquele instante. Ela então passava a ser muito maior do que realmente era e reluzia como talvez nunca tivesse reluzido desde que saíra da fábrica.
Às vezes me surpreendia vendo-a descolar do chão, ascendendo velozmente, rompendo o teto da velha barbearia; um foguete em pleno curso.
 Numa tarde meio chuvosa, escondido entre o poste e o guarda-chuva preto que trazia nas mãos, vi a lâmina aguda preparar-se para iniciar uma lobotomia; os dedos longos do alienígena iam e vinham  zipzapeantes ...
_ Ô menino, estás a sonhar acordado?!
Desfeito o laço que me atava à fantasia pus-me a correr rua abaixo lívido e envergonhado. Comigo iam meus cachinhos loiros que pendiam feito as roupas dos varais: promessa que mãe fizera.
_ Logo você vai para a escola, dizia minha querida mamãe enquanto escovava meus cabelos molhados e que escorriam entre o liso de seus dedos.
_ Vou aprender a ler? Vou aprender a escrever como meu irmão?
_ Sim, vai deixar de ser um menininho, pra ser o meu filho-doutor! Graças à virgem você está saudável!
Aquelas frases soaram na minha cabeça como uma trombeta anunciadora. Tive medo de que rissem dos meus cachos. Não suportaria as chacotas dos colegas e já podia prever as brigas no pátio e os castigos. A tão sonhada escola me causava um bolo no estômago cujos ingredientes eram desejo e dúvida...
O cheiro doce espalhou-se pelo ar já muito cedo e, na casa havia uma movimentação barulhenta; sons metálicos de talheres e sons vítreos das xícaras, canecas e copos.Nada de diferente, era assim todo santo dia e todo dia santo . Com a conversa miúda crescendo conforme a casa ia acordando, não demorou para que eu, o menor da casa ,  me juntasse ao burburinho matutino com hálito fresco de dentes escovados e olhos ainda apertadinhos . Tomei meu café misturado ao leite quente, comi um pãozinho. Como de costume, pouco falei, sequer resmunguei qualquer coisa. De certo modo, eu já previa que algo diferente estava por preencher as horas daquele dia, quem sabe da minha pequena vida inteira...
 Mamãe tomou-me a mão com delicadeza e silêncio apanhou a carteira de couro esgarçado, beijou-me a testa e caminhamos. Nada perguntei, embora minha língua coçasse dentro da boca. Se ela nada falava, também eu nada falaria. Eu podia tudo na vida, menos desapontá-la. Do fundo do meu coração percebi que aquele nosso conjunto de gestos tácitos era uma oração. Eu não podia pecar.
Paramos diante da barbearia. Meu coração batia escancaradamente; morrera o silêncio:
_ Bom dia seu Onofre!
_ Dia!
_ O senhor tá ocupado?
_ Nada! Então vai ser hoje o dia?
_Cumpri o que prometi. Minha dívida com a santa está paga. O menino é seu!
Aquela declaração continha muitas sutilezas e eu podia sentir a navalha percorrendo minha espinha.
Fui erguido pelas mãos cabeludas do velho homem e então acomodado na cadeira mágica, fechei os olhos, engoli o choro e fui celebrado com um tapinha no cocuruto. Meus pés largados ao nada ...
Abri os olhos: a cadeira não voou, nem atravessou o telhado como eu esperava, mas ergueu-se em pequenos solavancos rangentes.   O metal que a abraçava estava desgastado e seu revestimento puído. Respirei fundo e sorvi aquele momento.
As mãos ágeis do barbeiro desferiram o primeiro golpe e eu quase pude ouvir a lamentação do cacho esvoaçante antes que ele se entregasse ao chão.
 Um a um, os inocentes cachos foram-se então. Ergui meus olhos e o espelho me revelou uma figura com a qual eu deveria me acostumar  .
Uma borrifada de água, a tesoura, a navalha e o corte final: a idéia da escola era um bolo digerido.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Cada um no seu cada um


Dia abafado.Desses muitos que têm ocorrido com intensidade e freqüência além, muito além do normal.Tempos de conferência mundial do meio ambiente em Copenhague.
Embora algumas nuvens encobrissem o sol de domingo, a luz se espalhava ora branca, ora acinzentada .No horizonte , as águas da princesinha ondulavam preguiçosamente e sob meus pés areias de castelo.
“Come on , I´m talking to you...”A canção vinha num engrolado ébrio por detrás da minha cadeira e passou aos tropeços rente a cangas , esteiras, caixas de isopor e guarda-sóis em direção ao mar.
Opa!Ameaçou um tombo, como se uma ventania inesperada lhe abalasse as pernas.Minutos depois, quando a voz começava a se esconder em um canto qualquer da minha memória, lá vinha o homem novamente.Olhou em minha direção, achei até que tentaria um contato imediato de 42,6 graus, mas desviou o olhar e filosofou : O que eu quero mesmo é que todo mundo seja feliz.Cada um no seu cada um!
Tudo pareceu desaparecer por um instante, exceto a afirmação que ficou no ar, mastigando meu pensamento.


Essa reflexão é antiguinha, mas atemporal..